Piñera abre o cofre para enfrentar profunda crise social

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Presidente do Chile, Sebastián Piñera, envia mensagem à nação, em 27 de novembro de 2019 em Santiago

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, resolveu abrir o cofre para enfrentar a profunda crise social em seu país, que tem afetado a economia local sem que se vislumbrem saídas claras ou medidas que convençam os manifestantes.

Depois de lançar na segunda-feira um pacote de medidas para reativar a economia por 5,5 milhões de dólares, o presidente anunciou nesta terça-feira a entrega de um bônus único de cerca de 124 dólares para 1,3 milhão de famílias vulneráveis, o equivalente a um quarto do total de lares do país.

"Sei que os bônus não resolvem os problemas, ou eles não resolvem todos os problemas, mas também sei que isso significa um alívio importante, uma ajuda, no momento em que tantas famílias chilenas precisam", disse o presidente.

A ajuda extraordinária será paga apenas uma única vez em janeiro, assim como um bônus que é concedido todo ano em março às famílias mais pobres, em um mês em que o ano letivo começa no Chile e as despesas da família aumentam, explicou o ministro da Economia, Lucas Palacios.

"É um bônus único", com um gasto público total de "mais de 185 milhões de dólares", acrescentou o ministro.

As medidas econômicas foram anunciadas após a retração da economia em outubro, com uma queda de 3,4% na atividade no mês em que começaram os protestos sociais que resultaram em 23 mortos.

Esse percentual superou as piores estimativas do mercado e do governo, onde se previa uma queda na faixa de 0,5 a 2%, como reflexo da redução nas atividades comerciais e de outros serviços, como o turismo, após a convulsão social.

O plano de reativação, concentrado em um maior investimento público, na proteção ao emprego e no apoio a pequenas empresas, implicará um aumento real nos gastos públicos no próximo ano de 9,8% em relação a 2019, o que fará com que o déficit fiscal aumentar até 4,4% do PIB.

- Medidas insuficientes -

As pessoas sentem que, com os protestos em diferentes cidades do país, não tiveram uma resposta às suas demandas para transformar o sistema econômico chileno em um sistema mais igualitário, que proporcione bem-estar social.

O plano de Piñera parece se enquadrar "dentro de um cenário de desespero do governo", disse à AFP o analista da Universidade de Talca, Mauricio Morales.

"Em vez de propor um novo pacto tributário que afete diretamente os maiores empresários do país e o 1% mais rico, o governo sempre optou por medidas que só contribuem para exacerbar o clima das ruas e da oposição", acrescentou o analista.

Felipe Balmaceda, economista e acadêmico da Universidade Diego Portales, considera que "o plano de reativação é adequado, mas não há pacote de reativação que possa alcançar os objetivos se não houver ordem pública", disse à AFP.

Por outro lado, os bônus "são uma política de muito curto prazo, que tem um corte populista e, diante da situação, pode ser boa, mas não acho que tenha consequências reativadoras", afirmou.

Após 46 dias de crise gerada pelos protestos, a agenda social do governo de Piñera prevê aumento del 50% das aposentadorias básicas, a redução pela metade dos preços do transporte público para os idosos e um aumento da renda mínima paga pelo Estado.

Não há planos, entretanto, de um reforma profunda no sistema previdenciário nem um aumento da tributação. Também não há uma reforma substancial da saúde pública ou privada, que integram as principais demandas das milhares de pessoas que protestam nas ruas há mais de seis semanas.

Não foram anunciadas medidas para punir com mais rigor delitos de conluio empresarial ou suborno, castigadas com penas baixas, que geram uma forte sensação de impunidade.

"Acho que é hora dos crimes de 'colarinho branco' terem penas de prisão duras e eficazes. É difícil para os cidadãos entenderem que uma pessoa que vende CDs na rua acaba apodrecendo na prisão, enquanto os ricos não são presos", afirmou o presidente da Confederação de Produção e Comércio (CPC), Alfonso Swett.