Piñera, o bilionário que pode reconduzir a direita ao poder no Chile

Por Miguel SANCHEZ
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Candidato à presidência do Chile, Sebastian Pinera, durante comício em Santiago, em 16 de novembro

O bom faro para os negócios o levou a se tornar um dos homens mais ricos do Chile e sua persistência a ser o primeiro presidente de direita em quase 50 anos. O empresário Sebastián Piñera pode reconduzir a direita ao poder no país.

Se conseguir isto, como todas as pesquisas antecipam, seria o único político de direita a governar o Chile em duas ocasiões, ao final de um longo caminho que sempre trilhou junto ao manejo de seus negócios, que o levaram a ter hoje uma fortuna avaliada em 2,7 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes.

Piñera transitou por uma linha tênue que se confunde entre a gestão de seu patrimônio e os deveres de um homem de Estado, e teve que dobrar o seu caráter impulsivo para ganhar a confiança do eleitorado de centro-direita.

"Não pode se dedicar a ganhar dinheiro e governar o país. Ou um, ou outro", acusou o candidato governista Alejandro Guillier, segundo colocado nas pesquisas da disputa presidencial de domingo.

Quando chegou em 2010 à Presidência, aos 60 anos, depois de duas décadas de carreira política e quatro eleições presidenciais na bagagem, dilatou a venda de ações de uma emissora de televisão, da companhia aérea LAN (agora Latam, após a fusão com a brasileira TAM) e o time de futebol Colo-Colo.

"Na vida nem sempre fazemos o que queremos e, pelas razões que vocês sabem, tomamos a decisão de vender o Colo-Colo", disse Piñera, justificando essa operação que lhe deu rendimentos de 7,4 milhões de dólares.

Enquanto era presidente, houve uma disputa marítima entre Chile e Peru no Tribunal de Justiça de Haia, e uma de suas empresas comprou ações da companhia peruana de pesca Exalmar, que se beneficiou da sentença internacional que modificou a fronteira marítima entre os dois países, somando cerca de 22 mil quilômetros de mar para o Peru. Foi recentemente descumprida pela Justiça chilena.

- "Aprender com os erros" –

Em 2009, Piñera conseguiu romper com décadas de hegemonia de governos de centro-esquerda - havia sido derrotado por Michelle Bachelet em 2005 - para alcançar a presidência do Chile após ser deputado e senador, liderando, depois do retorno à democracia, a renovação da direita com a chamada "Patrulha juvenil".

Suas promessas de uma nova forma de governar logo desmoronaram. A realidade se impôs: governar um país não é o mesmo que administrar empresas.

"Se deu conta de que foi muito mais complexo do que pensava. Seu período no Palácio de La Moneda o fez aprender que as coisas são mais difíceis", segundo uma de suas biógrafas, a jornalista Bernardita del Solar.

Devido a tropeços e às piadas públicas por conta de seus erros frequentes ao citar dados históricos, compilados pelo semanário "The Clinic" nas chamadas 'Piñericosas', Piñera se manteve moderado nesta campanha de reeleição, traçada desde o dia em que deixou La Moneda com 50% de apoio.

Após a irrupção do candidato de ultradireita José Antonio Kast, abandonou o desejo de emergir como líder de uma direita renovada e democrática, distante da ditadura de Augusto Pinochet, da qual sempre foi crítico.

Um primeiro aviso de suas intenções foi dado durante seu governo anterior, quando enfrentou o próprio setor ao anunciar o fechamento de uma prisão especial para repressores e qualificar civis que apoiaram a ditadura de "cúmplices passivos".

"Não quero aprofundar divisões ou desencontros no interior da centro-direita, quero o contrário", disse Piñera ao anunciar o fechamento da cadeia que abrigava - com grande luxo - os principais repressores do regime de Pinochet.

- Nova campanha, velhos problemas -

Em meio à queda da popularidade de Bachelet após o escândalo de corrupção que envolveu seu filho mais velho, sua imagem de homem próspero voltou a agradar o eleitorado chileno, que hoje o tem, com 34,5% da preferência, como favorito para vencer as próximas eleições, inclusive no primeiro turno.

Uma revanche para Piñera, que ao final de seu governo confessou ter "inveja" de Bachelet pelo carisma inato e pela grande proximidade que consegue com as massas. Ele, ao contrário, parece frio, distante e soberbo.

Com sua nova candidatura voltaram também à cena pública seus tiques nervosos - um incômodo movimento de ombros -, seu rosto franzido, o ostentoso relógio vermelho que rompe com sua preferência pelos ternos escuros e as piadas (algumas machistas e de mau gosto) com as quais costuma fazer frente a situações públicas.