Piadas de Danilo Gentili fazem parte de violência contra mulher, diz especialista

Danilo Gentili esfregou ordem extra-judicial em suas partes íntimas. Foto: Reprodução/Instagram

O comediante Danilo Gentili foi condenado, nesta quarta-feira (10), a cumprir seis meses e 28 dias de prisão em regime semiaberto por ofensas proferidas contra a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS). A decisão foi sobre um caso que aconteceu em 2016. Naquele ano o humorista chamou a parlamentar de nojenta e falsa em algumas postagens em sua conta no Twitter.

Após receber uma ordem extra-judicial que pedia que as publicações fossem apagadas, Danilo gravou um vídeo rasgando o documento e esfregando os papéis em suas partes íntimas. De acordo com a decisão tomada pela juíza federal Maria Isabel do Prado, a postura do comediante “deixou absolutamente clara a real intenção de injuriar” a vítima.

A defesa do humorista chegou a alegar que o vídeo fazia parte de uma peça de humor e que não tinha a intenção de ferir a honra da parlamentar. Porém, a juíza disse, em sua decisão, que a ação de Danilo não deveria “jamais ser confundida” com uma brincadeira.

De acordo com a deputada ofendida, a condenação serviu para que a sociedade retomasse “o respeito, o bom senso no debate público, nas redes sociais e na vida”. Porém, algumas figuras saíram em defesa do humorista por achar que a condenação era um tanto quanto pesada. Outras pessoas afirmaram que esse tipo de decisão judicial poderia abrir precedentes para perseguição da liberdade de expressão.

Porém, para além da condenação do humorista, o que as atitudes dele dizem sobre a naturalização da violência contra a mulher? Para Joanna Burigo, mestre em gênero, mídia e cultura pela London School of Economics, a fala de Danilo foi um ato explícito de machismo.

“Existe um corpo teórico dos estudos feministas que vão apontar que a liberação de um discurso misógino [de ódio pelas mulheres] tem relação direta com a violência misógina. Muitas pessoas pensam como ações machistas somente aquelas que causam violência física, mas ela se apresenta sob diversas formas. Uma delas é essa da linguagem, de tratar a mulher, linguisticamente, como inferior”, explica a especialista.

Lembrando dos altos índices brasileiros de feminicídios (assassinatos de mulheres em decorrência do gênero) e de mortes de pessoas trans, Joanna diz que “não dá para ser leviano com discursos que corroboram e incentivam qualquer forma de machismo”. Isso, segundo ela, naturaliza a visão de que a mulher é um ser que vale menos.

A especialista diz que, se algumas pessoas riram da piada de Danilo, não é possível dizer que não existia humor em sua ação. Porém, ela explica que a comédia não acontece no vácuo em uma sociedade. Para ela, quando se coloca pessoas que são marginalizadas como motivo de chacota, a violência contra esses grupos só tende a aumentar.

“Ele efetivamente está contribuindo para solidificação de uma narrativa que mantém as mulheres em posições de vulnerabilidade. [A piada] não tem responsabilidade social nenhuma. É bastante leviano. Na verdade, eu vejo esse tipo de humor como criminoso”, diz Joanna.

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