PIB encolhe em meio a crise hídrica e avanço da variante delta

·4 minuto de leitura
Electric power meter measuring power usage. Watt hour electric meter measurement tool at pole, outdoor electricity for use in home appliance monitor the home's electrical energy consumption.
Getty Creative

O bairro da cidade onde eu moro, no interior de São Paulo, não terá água às quartas e sábados. O fornecimento será cortado sempre às 10h e só retornará nas primeiras horas dos dias seguintes.

Em casa já recolhemos a mangueira. A grama, queimada pela seca do último inverno, que lute. Num copo, priorizo algumas plantas, guardo um recipiente para alguma emergência nas próximas horas e adianto o banho (mais rápido, como deve ser) do meu filho, de oito anos.

Em instantes já não poderemos dar descarga, lavar a louça, cozinhar alimentos. O desodorante antitranspirante virou item fundamental. Com criança em casa, a apreensão é que ela se suje e vá dormir com os pés encardidos. Uma surra de novo normal, agora versão Cascão.

Os esforços são necessários no momento em que os reservatórios da região estão à míngua. Não foi de um dia para outro, mas a gravidade da situação ficou evidente quando um repórter da TV local gravou uma passagem no centro do que até outro dia era um lago. A terra rachada, em grandes blocos, seca, como grandes placas tectônicas, compõe um cenário de área arrasada. Uma distopia ao estilo Mad Max, com guerra de todos contra todos para obter gasolina e água potável.

Em casa, apenas um de nós três já recebeu as duas doses de vacina. A apreensão forma uma tempestade perfeita (de areia, pois não chove com vigor há dias) com os elementos aglutinadores da pandemia e de um racionamento que eram favas contadas até se confirmar.

A não ser que o dilúvio termine de destruir a lavoura, os planos de montar a piscina de plástico, quando o calor voltasse, ficaram para o próximo verão. Dos males, o menor.

Leia também:

Em tese, ninguém vai morrer por isso, e os dois dias sem água, no sacrifício, não são exatamente um drama. O perrengue sem hora para acabar é a norma, não a exceção, para muita gente desse país.

Em março de 2021, 35 milhões de compatriotas não tinham acesso a água potável e apagões na região Norte, em cidades integradas à malha de fornecimento elétrico, têm sido recorrentes nos últimos anos.

Na terça-feira 31, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, fez um apelo, em pronunciamento em rede nacional de rádio e TV, por um “esforço na redução de consumo”. Seu chefe, Jair Bolsonaro, orientou a população a desligar “um ponto” em suas casas. Vai fazer tanto efeito quanto a sua sugestão para que os brasileiros passassem a defecar dia sim, dia não, para ajudar a preservar o meio ambiente.

Na fronteira do surrealismo à brasileira, ninguém mais sabe quando o líder da nação fala sério ou brincando. A dica gastronômica para trocar feijões por balas de fuzis borrou de vez o que é realidade e o que é fantasia no Brasil contemporâneo.

Fato é que, até 30 de abril, estará em vigor a “bandeira tarifária escassez hídrica”, que adiciona R$ 14,20 às faturas da força e luz para cada 100kW/h consumidos.

O dinheiro para bancar o fornecimento extra de energia é o dinheiro que deixará de irrigar comerciantes e prestadores de serviços na retomada. Para este semestre, esperava-se uma alavancagem da economia induzida pelo consumo das famílias com o avanço da vacinação.

Mas havia uma crise hídrica, energética e variantes do coronavírus, como a delta, no caminho.

Uma crise que, a exemplo dos dias que antecederam a pandemia, que já dava sinais de seus estragos em outros países, só virou um assunto, por parte das autoridades, quando ganhou materialidade. Num caso, com a enfermidade de pessoas próximas. Em outro, com torneiras sem água.

Não fosse o negacionismo das autoridades, os esforços de distanciamento social e, agora, para a redução do consumo de água e energia poderiam ter começado antes e não soariam tão draconianos. A um ano das eleições, preservar a popularidade era a prioridade. E ainda é.

Não tem dado certo.

A demora em reconhecer a gravidade do problema e tomar medidas firmes — coordenadas com governadores, prefeitos, parlamentares e juízes — não impediu o morticínio (são mais de 570 mil vidas ceifadas) pela covid-19 nem impediu que a crise econômica cobrasse a fatura a prestações, como se fosse permanente.

O conjunto de erros, turbinados por uma briga política sem luz no fim do túnel, fez com que no segundo trimestre deste ano o Produto Interno Bruto recuasse 0,1% na comparação com os três meses anteriores, segundo o IBGE.

É de se esperar que os responsáveis pelo quadro culpem novamente o mensageiro (no caso, o instituto de pesquisa), os adversários políticos, os propagadores da “histeria em torno da gripezinha”. Acredite quem quiser.

A prometida volta ao velho normal, impulsionada pela retomada da economia, queimou a largada com os pneus carecas do negacionismo.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos