Piloto que ficou 36 dias perdido na selva trabalhava para garimpo dentro de reserva biológica

FABIANO MAISONNAVE
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Celebridade nacional por sobreviver a um acidente aéreo e a 36 dias sozinho na floresta, o piloto Antônio Sena operava em um garimpo ilegal de ouro localizado dentro de uma reserva biológica, a categoria mais restritiva de proteção ambiental do país, que proíbe qualquer interferência humana. O piloto desapareceu em 28 de janeiro, quando o avião caiu em uma área de floresta de difícil acesso nas redondezas do rio Paru, perto da divisa do Pará com o Amapá. Ele foi resgatado no sábado (6), após caminhar por 32 dias. Sena, 36, foi contratado para ir até o garimpo Treze de Maio, localizado dentro da Reserva Biológica (Rebio) Maicuru, no norte do Pará e de gestão estadual. A sua missão seria levar mantimentos e óleo diesel para um dono de garimpo baseado em Alenquer (PA), de apelido Tuchau. Criada em 2006, a Rebio Maicuru integra um mosaico de áreas protegidas que formam o maior corredor de biodiversidade do mundo, somando 12 milhões de hectares. "Sem dúvida, a sobrevivência do piloto nos alegra", diz Angela Kaxuyana, coordenadora das Organizações dos Indígenas Amazônia Brasileira (COIAB). "Mas ninguém está investigando o que ele estava fazendo. Ele sobrevoava uma região próxima a territórios indígenas, onde há presença de povos isolados. Qual era o objetivo da presença dele? Qual era a rota? Ao invés de ser celebrado como herói, ele precisa ser investigado." A Polícia Federal abriu inquérito sobre o caso, mas informou que não comenta investigações em andamento. Em outubro do ano passado, uma megaoperação coordenada pela PF fechou o garimpo Limão, vizinho ao Treze de Maio e também dentro da Rebio Maicuru. Os trabalhadores encontrados no local incluíam indígenas da região -alguns não falavam português. O garimpo Limão era controlado por Armando Amâncio da Silva, que montou um império da aviação em paralelo à extração ilegal de ouro. Sua empresa, Piquiatuba Táxi Aéreo, de Santarém (PA), é uma das maiores do ramo do país, com 27 aeronaves em outubro, segundo registro na Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). A Piquiatuba tinha um contrato de cinco anos para fazer a manutenção de aeronaves para o Grupamento Aéreo (Graesp), encerrado em setembro passado. Foi o Graesp, subordinado à Secretaria, de Segurança Pública do Pará, que realizou as buscas fracassadas para encontrar Sena. Durante os sobrevoos, eles não visualizaram nenhum garimpo na região, informou a Secretaria de Segurança Pública do Pará, governado por Helder Barbalho (MDB). Na casa de Amâncio da Silva, a PF apreendeu 44 kg de ouro em um cofre. Na época, ele estava internado em São Paulo para tratar de um câncer. Morreu logo depois, aos 76 anos, sem nunca ter sido formalmente acusado pelo garimpo ilegal que explorava havia cerca de quatro décadas. Integrada pela PF, pelo Exército, pela Marinha e pelo Ibama, a operação para fechar o Limão deixou de fora o vizinho 13 de Maio. Trata-se do maior dos quatro garimpos ilegais ali, segundo o Plano de Manejo da Rebio Maicuru, publicado em 2011. Tem pista de pouso de 800 metros, estrada de acesso por terra de 120 km e uma vila que abrigava à época 128 pessoas. Além disso, passados cinco meses do fechamento do garimpo, realizado sob o marco da Operação Verde Brasil 2, o Limão já voltou a funcionar, segundo relatos obtidos pela reportagem. Procurada, a PF não comentou essa informação. "As notícias sobre os garimpos na região norte do Pará são ruins. Há um fluxo muito grande, inclusive de aviões passando diariamente por cima de territórios indígenas", afirma Kaxuyana. "O impacto é extremamente grave. Contamina solos e rios, dos quais os indígenas dependem para viver. Além disso, coloca os povos em situação vulnerável por causa da pandemia. O território Zoé, de recente contato, está próximo desse garimpo, e há indícios de povos isolados." OUTRO LADO A reportagem enviou perguntas via WhatsApp a Sena e a sua recém-contratada assessoria de imprensa, mas não houve resposta até a conclusão deste texto. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na semana passada para falar de sua epopeia, ele admitiu que estava trabalhando em um garimpo ilegal. Disse que foi atraído pelo pagamento alto e que nunca mais aceitará esse tipo de serviço. "Sempre recebi convite para voar para o garimpo e, com o [preço do] ouro lá em cima e a gente precisando, aceitei. O salário de um comandante de uma companhia no Brasil chega a R$ 18 mil, o que dá uma diária de mais de R$ 810 para voar 22 dias, algo em torno de R$ 68 a hora. O voo de garimpo paga R$ 300 a hora", afirmou. Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Pará, governado por Helder Barbalho (MDB), tampouco respondeu às perguntas enviadas até a conclusão do texto.