'Pinkwashing': Ativistas abrem debate ao acusar Israel de manipular causa gay

Quando o sol se põe atrás dos contêineres e navios atracados em Haifa, as ruas são tomadas por jovens. Nas calçadas paralelas ao porto e ladeiras perto da estação de metrô, mesas de bares e restaurantes são disputadas por casais e grupos de estudantes judeus e árabes, em uma das principais cidades de população mista de Israel — que é também uma das mais abertas à comunidade LGBT+.

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— O governo tenta fazer parecer que Israel é um país super amigável com gays, que Tel Aviv é a capital gay do mundo — diz Shafik Najjar, 25 anos, que na noite da última quinta-feira estava em uma aula de cerâmica no estúdio da artista árabe Rania Makhlouf. — Isso é besteira. O governo tenta usar esse discurso a seu favor, dizendo que os árabes são atrasados, homofóbicos. Mas na população judia não é tão diferente. Tel Aviv não representa Israel. É uma bolha.

Fora das leis

A Parada do Orgulho de Tel Aviv é a maior do Oriente Médio. O governo de Israel fala com frequência sobre a liberdade que a comunidade LGBT+ tem no país. Membros da comunidade podem servir no Exército. Ao contrário do que ocorre em países como Hungria e Rússia, os líderes de direita israelenses não têm como principal bandeira combater seus direitos — o governo chega a divulgar a parada em notas à imprensa.

Apesar da imagem que Israel vem construindo como paraíso das minorias sexuais, ativistas denunciam a prática de usar esses direitos para manipular a maneira como o país é visto internacionalmente.

Em Israel, judeus LGBT+ criticam o governo por usar o discurso dos direitos como propaganda sem promovê-los na lei. Já judeus da diáspora e árabes israelenses afirmam que ele é usado para esconder outros problemas, como o conflito com os palestinos. A estratégia de encampar os direitos LGBT+ no discurso sem promover mudanças legais ou usá-los para desviar o foco de outros temas é o que ativistas chamam de “pinkwashing”, lavagem rosa.

No centro de um grafite colorido do prédio atrás do Bar Fattouch, um dos pontos de encontro de jovens árabes da comunidade LGBT+ em Haifa, está a pichação: “Pecadores da Terra Santa”.

— Haifa é uma cidade mais aberta, porque tem muita gente de fora, da Cisjordânia e das aldeias árabes, que vem morar aqui — diz Hamoudy Shami, gerente do bar, cujo dono é árabe e gay.

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Shami acredita que esses jovens se sentem mais seguros em Tel Aviv e em Haifa, onde a sociedade árabe é mais aberta.

— Depois de morar aqui, eles conseguem contar para seus pais e seus amigos nas cidades de onde vieram, porque se sentem mais seguros, até financeiramente.

A violência contra jovens LGBT+ ainda é uma questão nas localidades árabes de Israel e na Cisjordânia. Em 2019, dois homens da cidade de Tamra foram acusados de tentar assassinar seu irmão na saída de um albergue que abriga jovens LGBT+ em Tel Aviv, depois de descobrirem a orientação sexual do menino de 16 anos.

— Não me sinto seguro em Israel, porque minha sexualidade não diz tudo que eu sou. Se eu sou gay, ou bissexual, não é isso que importa — diz Majd Bakri, 21 anos, morador de Haifa. — Quando olham para mim, só pensam que sou árabe. Quando ficam sabendo que sou gay, dizem que não pareço gay ou mesmo árabe.

Palestino primeiro

A negação da identidade incomoda Bakri. Os próprios termos complicam a conversa: ele se apresenta como palestino, mas, para o discurso de Israel, pessoas como ele, que têm cidadania, devem ser chamados de árabes.

— O mês do orgulho gay é uma celebração. Como jovens, gostaríamos de ir a qualquer lugar onde tem festa, mas é isso que Israel quer, trazer todos da comunidade para dançar, se sentir aceitos, mas isso não é verdade. Durante o mês do orgulho do ano passado, nove palestinos foram mortos na Cisjordânia e em Gaza. E as pessoas estavam festejando na praia em Tel Aviv. Se Israel não fosse um país promovendo ocupação, acho que não existiria o mês do orgulho. É só pinkwashing para fazer as câmeras focarem no lado bom.

Mestre em estudos árabes pela Universidade Georgetown, Diogo Bercito acredita que o pinkwashing faz parte da narrativa mais ampla de posicionamento de Israel como “a única democracia da região, o país mais avançado, mais progressista, mais liberal”.

— Essas coisas podem parecer distantes, a cena gay de Tel Aviv e a ocupação israelense, mas tudo faz parte de um mesmo sistema discursivo.

A estratégia de unir dois temas diversos é vista com ceticismo por ativistas pró-Israel, que afirmam que, no país, os direitos são mais respeitados do que nos países árabes. Ainda mais porque, nos EUA, a bandeira anti-pinkwashing é levantada por grupos considerados radicais, como o Voz Judia pela Paz, que apoia práticas do BDS, movimento que promove sanções e boicote contra Israel.

— A acusação de pinkwashing é uma técnica de silenciamento — diz Ethan Felson, diretor-executivo da ONG A Wider Bridge, que promove direitos LGBT+ em Israel. — Ninguém está tentando usar os avanços da pauta LGBT+ para prejudicar os palestinos. Temos preocupação e compromisso com a paz.

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Ainda assim, os palestinos não estão sozinhos no debate. Grupos de judeus da diáspora vêm se engajando no tema.

— O governo usa táticas para distrair as pessoas, principalmente do Ocidente, do que está acontecendo aqui, como a ocupação, a opressão dos palestinos — diz Rochelle Braverman, de 24 anos.

Ativista nascida na Austrália, ela obteve cidadania israelense este ano justamente porque quer repor em pauta temas considerados de esquerda em Israel, deixados de lado desde que a direita passou a dominar a política nacional:

— É muito benéfico para o governo ser o lugar no Oriente Médio onde é seguro ser gay, mas nem isso é necessariamente verdade. Ainda há muita homofobia em Israel.

Na sexta-feira, mais de 170 mil pessoas participaram da Parada do Orgulho de Tel Aviv. Apesar de ter sido palco de protestos contra o pinkwashing em edições anteriores, neste ano o foco ficou na celebração da diversidade.

— Israel é um bom lugar para ser um casal gay — diz Roy Freeman, 48 anos, que não vê relação entre a questão palestina e a pauta LGBT+. — Ainda não temos todos os direitos, mas chegaremos lá. O que falta mesmo é o casamento civil.

Perigo fora das bolhas

O casamento gay não existe em Israel porque não existe casamento civil, nem mesmo para casais heterossexuais. Todos os casamentos realizados no país são religiosos. Qualquer casal, hétero ou homoafetivo, que queira se casar fora da religião tem que fazê-lo fora e homologar a união junto ao governo quando voltar.

Além da falta de direitos, membros da comunidade denunciam que a violência ainda persiste, sobretudo fora das bolhas de Tel Aviv e Haifa.

Uma das principais manchas na reputação de Israel como lugar seguro para a comunidade foi quando, em 2015, uma jovem de 16 anos foi assassinada a facadas na Parada do Orgulho de Jerusalém por um extremista ultraortodoxo.

— Em Israel, a comunidade LGBT+ ainda sofre com exclusão constitucional e desigualdade de direitos — diz Gal Shayovitz, que denuncia o uso do pinkwashing pelo governo para desviar do problema. — A desigualdade constitucional cria uma percepção entre vários públicos de que não temos lugar, e a falta de legislação dá legitimidade para isso. Esses públicos nos chamam de pervertidos, anormais ou doentes. Isso gera insegurança.

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