Pintar, escrever, ensinar: após descobrir Parkinson, executivo muda radicalmente de vida

Maíra Rubim
·4 minuto de leitura

RIO — Guto Pedreira se formou em Administração de Empresas. Aos 46 anos, já ostentava no currículo os cargos de executivo da L’Oréal e vice-presidente da Natura. Foi aí que tudo começou a mudar. Ele passou a ter dificuldades para escrever e para assinar cheques; a mão tremia. Atribuindo o problema ao estresse causado pelo trabalho, pediu demissão e decidiu fazer um curso de gastronomia na Le Cordon Bleu, em Paris. Mas quando precisou bater uma clara em neve, não conseguiu. Voltou para o Brasil e procurou um médico, que lhe deu o diagnóstico: desenvolvera, precocemente, o mal de Parkinson. Naquele momento, sentiu que era a hora de mudar para valer.

— Num primeiro momento vieram a raiva, um sentimento de rejeição e vontade de morrer. Cheguei até a dizer que ia escrever meu testamento — relembra.

Enquanto assimilava a notícia, ele fazia trabalhos de consultoria. Sempre escondendo a doença, por constrangimento. Nesse meio tempo, sua mulher pediu a separação. Logo depois, ele começou a fazer a ponte aérea Rio-São Paulo para trabalhar. Até que um dia não conseguiu mais.

— Precisava mudar a minha maneira de ver o mundo, porque sabia que a doença ia evoluir. Um dia acordei e falei: se eu me entregar, a doença vai me consumir. Resolvi contar para a minha mãe esperando a pior reação, mas ela pediu um chope para celebrarmos a vida — conta.

Hoje com 53 anos, ele tem uma rotina totalmente diferente. Vendeu imóveis, carros, relógios e outros objetos caros e passou a valorizar sentimentos e experiências. Ex-morador da Gávea, reside há dois anos no Jardim Oceânico. A oportunidade de viver numa região pela qual sempre teve simpatia surgiu quando soube que um amigo tinha um apartamento para alugar justamente ali.

— Eu me orgulho mais do homem que sou hoje do que de quem eu era. Não quero mais posses; quero valores de vida e histórias legais de recordar — diz.

A nova fase tem sido prolífica. Ele já escreveu dois livros, um de contos, “Eu, tu, nós”, vendido pela internet, e outro sobre sua história, “Escolha pela vida”, que será lançado em breve. Se antes não sabia nem desenhar, hoje pinta dois quadros abstratos por dia (aprendeu pelo YouTube) e tem uma empresa que o ajuda a comercializá-los. Conta também que começou a fazer poesia.

— Quando eu pinto, a doença desaparece; parece que eu me desligo e os problemas somem. Não me sinto doente, só tenho menos dopamina que você — afirma, referindo-se ao neurotransmissor que é mais conhecido por influenciar as emoções, mas que também atua no controle do sistema motor.

Guto também faz palestas nas quais fala da importância da inclusão e da diversidade e outras sobre como ressignificar a vida, ambas para empresas. Planeja ainda criar um projeto social.

— Por que não levar a pintura para autistas e portadores de doenças cerebrais? Por enquanto, administro três contas no Instagram (@gutopedreira, @escolhapelavida e @guto_em_arte) em que mostro minhas artes, meu dia a dia e falo sobre superação. Faço questão de responder cada pessoa — conta.

Ele explica que hoje passou a ter dois nomes, Guto Pedreira e Guto Pedreira do Parkinson, mas não se abala:

— Metade das mulheres desiste de sair comigo quando descobre; há outras que aceitam. Mas está tudo bem. Minha vida se transformou e estou feliz. Uma das coisas que não quero mais é ter razão.

Além do apoio da mãe, ele encontra conforto na relação com as filhas de 11 e 20 anos e o filho de 24.

— Ganhamos força quando percebemos o valor que temos para as pessoas. Muitos só se aproximam de você pelo seu cargo, seu dinheiro. E, quando acontece alguma coisa, são poucos os que ficam — diz.

Ele chegou à conclusão de que viver é bom demais e achou que seria injusto não lutar por sua vida enquanto tantos estão fazendo isso.

— Faço spinning, atividade física, namoro, cozinho, me reúno com os amigos. Tenho disposição para tudo — afirma.

O que move Guto é melhorar ainda mais a sua vida e estimular quem o acompanha. Sabe que muitas pessoas ainda o olham com pena, mas espera, isso sim, que elas admirem sua tenacidade. Ele próprio sente orgulho de sua trajetória.

— Quando descobri a doença, tive que lidar também com a separação, a rejeição e o fracasso. Tinha tudo para cometer suicídio, mas fui para o lado oposto — conta.

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