Boxeadora do Irã luta sem hijab e cancela volta ao país para evitar prisão

(Foto: Getty Images)

Era para ser um momento histórico na vida de Sadaf Khadem. A lutadora de 24 anos se tornou a primeira iraniana a disputar uma luta oficial de boxe no dia 13 de abril, quando participou de um torneio na França, venceu a anfitriã Anne Chauvin e ficou com o título. As autoridades iranianas, contudo, não reconheceram o feito.

O boxe feminino não é oficialmente reconhecido no Irã. A Federação Iraniana de Boxe (Aiba) só permitiu que mulheres praticassem o boxe neste ano, desde que treinadas por uma mulher e vestidas conforme as leis da República Islâmica, com o tradicional hijab.

Sadaf teria quebrado a regra ao lutar com shorts e camiseta nas cores do país, o que teria motivado as autoridades a expedirem mandados de prisão contra ela e contra o treinador e organizador da luta, Mahyar Monshipour, tido como cúmplice.

O treinador disse à rádio francesa RFI ter sido informado sobre os mandados de prisão por mensagens no celular. Assim, os dois optaram por não pegar o voo que os levaria de volta ao Irã na semana passada e decidiram permanecer na França.

As autoridades iranianas negaram que tenham emitido mandados de prisão. Por meio de uma nota divulgada pelo Ministério dos Esportes do Irã, a Federação Iraniana de Boxe (Aiba) desmentiu a acusação, mas o presidente da entidade reforçou que não reconhece a pugilista como profissional, classificando a luta na França como uma “atividade de cunho pessoal”. Ainda segundo a FRI, a Autoridade Judiciária, responsável pelos mandados de prisão, não se manifestou.

A competição, contudo, foi registrada como oficial e validada por juízes na federação francesa de boxe. A ministra dos Esportes francesa, Roxana Maracineanu, disse que a luta de Khadem foi “simbólica” para os direitos das mulheres no Irã e afirmou que acompanhará o caso de perto.

Como contou à Reuters, Monshipour decidiu organizar a luta da pugilista depois que o Irã permitiu, no início do ano, que mulheres praticassem o boxe. Diante das restrições da entidade, como o pedido para a técnica e a árbitra serem mulheres, ele optou por fazer a luta na França – segundo o próprio, em consenso como o Ministério do Esporte.

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Khadem tem 24 anos, é personal trainer e passou os últimos três anos treinando clandestinamente até poder fazer sua estreia oficial. A pioneira espera que seu feito abra caminho para outras pugilistas de seu país.

"As boxeadoras iranianas têm muito talento, levam jeito e espero que este combate ajude a promover o boxe feminino no Irã", disse Khadem à FRI. "Sonhei com essa luta durante muito tempo, me esforcei muito por ela. Que minha iniciativa possa abrir as portas deste esporte para as mulheres iranianas. Para mim, não é importante ser a primeira, mas poder continuar nesse caminho.”

Proibição às mulheres no Irã

No Irã, a participação de mulheres em eventos esportivos é restrita, seja como atletas ou meras espectadoras. Desde a revolução islâmica em 1979, mulheres não podem comparecer a estádios.

Em 2018, a Copa do Mundo da Rússia foi marcada por protestos de torcedoras nas arquibancadas, com campanhas para que fossem autorizadas a ir nos jogos em seu país. Elas puderam acompanhar alguns jogos pontuais em 2018, mas em outubro, o Procurador-Geral Mohamed Jafar Montazeri voltou a reforçar a proibição.

No âmbito das lutas, iranianas podem praticar tae-kwondo, karaté ou kung-fu, mas como a Aiba só abriu as portas para o boxe feminino recentemente, o esporte ainda não é organizado. Há na federação um projeto para a criação de um departamento feminino, sempre sob as rígidas leis da República Islâmica.

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