Pivô de guerra entre tráfico e milícia na quarentena é colocado em isolamento na cadeia

Rafael Soares
Ex-miliciano foi preso em dezembro de 2018, delatado por comparsa

Renato Nascimento dos Santos, o Renatinho Problema, pivô de uma guerra entre traficantes e milicianos em Itaboraí, Região Metropolitana do Rio, durante a quarentena, foi colocado em isolamento no Complexo de Gericinó, onde está preso. A medida foi tomada pela Secretaria estadual de Administração Penitenciária (Seap) após o EXTRA revelar, no último dia 23, que o ex-miliciano rompeu com seus antigos comparsas e se aliou a traficantes para invadir a cidade.

Renatinho foi transferido da Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho, que abriga traficantes da facção a que o ex-miliciano se aliou, para a Laércio da Costa Pelegrino, Bangu 1, presídio de segurança máxima do complexo prisional, que abriga lideranças e presos com risco de vida. A mudança foi justificada Seap como de "interesse da admnistração". O isolamento de Renatinho e a consequente perda de contato dele com seus novos comparsas foi o principal pleito de uma reunião, no dia 15 de abril, entre representantes da PM, da Polícia Civil, do Ministério Público e do Tribunal de Justiça que atuam em Itaboraí para evitar a guerra de facções.

A investida mais recente da nova facção do ex-miliciano em Itaboraí aconteceu no último 9, em meio às restrições de circulação adotadas pelo governo do Rio no combate ao coronavírus, nos bairros Porto das Caixas e Visconde. Houve tiroteio entre as quadrilhas, e um homem armado foi encontrado morto pela polícia dentro de um carro. Traficantes da nova facção do ex-miliciano, entretanto, já circulam por Itaboraí desde, pelo menos, 21 de março, quando policiais do 35º BPM prenderam um integrante da quadrilha com drogas em Porto das Caixas.

A chegada de Renatinho Problema à nova facção coincide com o interesse da quadrilha em entrar em Itaboraí. Até o ano passado, a milícia disputava o controle do município com outra facção do tráfico, que domina a Favela da Reta, maior comunidade da região.

Traição e prisão

Renatinho Problema foi o responsável por levar a milícia a Itaboraí. A chegada da quadrilha à cidade remete — segundo a investigação do Ministério Público e da Divisão de Homicídios que culminou com a prisão de mais 40 pessoas em julho do ano passado — ao início de 2018. Na época, um grupo de milicianos chefiado por ele saiu de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, rumo ao município. Foragido, Renatinho queria “recomeçar” a vida fora dos holofotes da polícia, num local em que sua atuação chamasse menos atenção.

O miliciano, então, com a benção de Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica — chefe de um dos maiores grupos paramilitares do Rio — passou a arregimentar comparsas e armas. À tiracolo, Renatinho levou seu braço direito, o sargento Fábio de Souza Costa, o China. De serviço, ele batia ponto na UPP do Borel. Nas folgas, ajudava Renatinho a tomar o controle de sete bairros de Itaboraí, mais da metade da área urbanizada do município, onde vivem 240 mil pessoas.

No final de 2018, entretanto, o hoje ex-miliciano foi preso após um racha no grupo criminoso. Fábio China, o número dois da hierarquia da milícia, passou informações a agentes da 82ª DP (Maricá) sobre o paradeiro de Renatinho. Após a prisão, o sargento PM assumiu a chefia do grupo. Na decisão em que decretou a prisão de Renatinho e China, no ano passado, o juiz Daniel da Silva Fonseca, da 1ª Vara Criminal de Itaboraí, apontou que "um verdadeiro 'racha' entre os acusados Renatinho Problema e China culminou com a prisão do primeiro a partir de informações repassadas à 82ª DP pelo segundo".

Apesar da briga, Renatinha continuava recebendo dinheiro da milícia, mesmo preso. Segundo um miliciano que fez acordo com a Justiça durante as investigações, R$ 15 mil eram repassados toda semana ao ex-chefe. Quem ia a Itaboraí buscar o dinheiro era a mãe do miliciano. No depoimento, o colaborador também afirma que o bando conseguia juntar até R$ 200 mil somente com as taxas cobradas em dois bairros, Porto das Caixas e Visconde.