Pix: o que os bancos vão ganhar com esse novo sistema de pagamentos?

Letycia Cardoso
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Foto: Eduardo Valente / Agência O Globo
Foto: Eduardo Valente / Agência O Globo

O novo sistema de pagamentos do Banco Central, Pix, que já começa funcionar amanhã, irá permitir que clientes pessoa física façam transferências de modo gratuito, 24 horas por dia e 7 dias por semana. Diante de tantos benefícios, os consumidores se perguntam: há alguma letra miúda no contrato que não esteja sendo divulgada? Afinal, qual o real interesse dos bancos nisso?

Assista:

De acordo com a gerente de Inovação e Tecnologia da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Carolina Sansão, os bancos gastam cerca de R$ 10 bilhões com logística de papel moeda, isto é, para fazer o dinheiro circular pelo país. Com a implementação do Pix e o aumento das transações digitais, a necessidade de circulação de cédulas irá diminuir e, consequentemente, os bancos irão economizar recursos.

— A chegada do Pix será uma poderosa ferramenta para impulsionar a bancarização no país, trazendo novos clientes para o sistema financeiro — completa Carolina.

Entenda mais:

O economista do Ibmec RJ, Filipe Pires, afirma que hoje há mais de 40 milhões de trabalhadores brasileiros que só fazem transações em dinheiro, o que, além de gerar custo para o estado, dificulta o rastreio. Ele ainda sugere que esse sistema de pagamentos irá proporcionar maior vantagem competitiva às fintechs:

— Há bancos digitais que absorvem o custo de TED e DOC dos seus clientes e isso gera uma despesa. Se esses operarem mais pelo Pix, essa fintech pode não arcar com o custo, nem repassá-lo.

Esse é o caso do Nubank. Segundo cálculos da instituição, por meio do custeio das tarifas de TED, seus clientes economizaram R$ 8 bilhões desde 2017, quando a sua conta digital foi lançada.

O C6 Bank — que oferece aos clientes isenção de taxas por TEDs, saques e de anuidade do cartão, assumindo os custos — também terá redução de despesas a partir da disseminação do Pix.

— Ainda pode haver outro fator de redução de custo: a dispensa da emissão do plástico como um cartão para compras em débito e saques — acrescenta Maxnaun Gutierrez, head de Produtos e Pessoa Física do C6 Bank.

A chegada do Pix não deve representar impacto significativo nas receitas que os bancos têm com as tarifas de TED e DOC. Isso porque, segundo pesquisa realizada pela Febraban, 62% das contas transacionais já são isentas desse tipo de cobrança por regulação do Banco Central. Entre as restantes, uma parte significativa também não paga tarifas em função do relacionamento do titular com o banco ou por causa do pacote de serviços contratado.

Dessa forma, para os bancos tradicionais, além de possibilitar economia com o deslocamento de papel moeda, o novo sistema de pagamentos fornece a chance de estreitar laços com o consumidor, ganhar a sua confiança e, com isso, poder vender para ele outros produtos da instituição financeira.

— A conta de perdas e ganhos com a chegada do Pix não é simples. Não é como se desligasse uma chave e ativasse outra. Mas apostamos que, uma vez que eu forneça uma experiência melhor para o meu cliente, automaticamente ele vai passar a consumir mais produtos do banco para outras funcionalidades. Isso vale tanto para o estudante, quanto para o dono de uma grande empresa que já construiu seu patrimônio — explica Gustavo Milaré, gerente executivo de meios de pagamento do Banco do Brasil (BB).

Durante a fase de teste até a última quinta-feira (12), foram realizadas 826 mil transações, totalizando cerca de R$ 325 milhões. Nesse período, foram cadastradas 69,5 milhões de chaves Pix, sendo 66,6 milhões de pessoas físicas. O tipo de chave mais escolhido, até então, era o CPF, com 25,4 milhões de registros. Todas as movimentações financeiras por meio do Pix serão acompanhadas pela Secretaria da Receita Federal.