Planalto quer usar baixa adesão a atos do MBL contra Bolsonaro para reanimar base radical

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BRASÍLIA, DF, 13.09.2021 – JAIR-BOLSONARO-DF: O presidente Jair Bolsonaro acompanhado do vice-presidente Hamilton Mourão e dos ministros Anderson Torres (Justiça) e Paulo Guedes (Economia), durante cerimônia de lançamento do programa Habite Seguro, voltado aos profissionais das forças de segurança, no Palácio do Planalto, em Brasília, nesta segunda-feira. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
BRASÍLIA, DF, 13.09.2021 – JAIR-BOLSONARO-DF: O presidente Jair Bolsonaro acompanhado do vice-presidente Hamilton Mourão e dos ministros Anderson Torres (Justiça) e Paulo Guedes (Economia), durante cerimônia de lançamento do programa Habite Seguro, voltado aos profissionais das forças de segurança, no Palácio do Planalto, em Brasília, nesta segunda-feira. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Auxiliares do presidente Jair Bolsonaro viram a baixa adesão de participantes aos atos contra o governo neste domingo (12) como uma oportunidade para reanimar a base bolsonarista nas redes sociais.

Há preocupação entre assessores no Palácio do Planalto com os efeitos da "Declaração à Nação", nota retórica divulgada por Bolsonaro na semana passada na qual afirmou que não teve "nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes".

O documento, divulgado dias após os atos do 7 de Setembro em que Bolsonaro ameaçou o STF (Supremo Tribunal Federal), dividiu aliados bolsonaristas.

Além do mais, Bolsonaro registrou um tombo de popularidade nas redes na esteira da divulgação da carta, que foi redigida com ajuda do ex-presidente Michel Temer (MDB).

Assessores presidenciais avaliam, reservadamente, que o passo atrás dado por Bolsonaro na escalada da crise com o Judiciário fragiliza a base mais fiel do bolsonarismo, que foi às ruas no Dia da Independência defendendo uma agenda radicalizada.

Eles comemoraram o resultado das manifestações convocadas pelo MBL (Movimento Brasil Livre), pelo Vem Pra Rua e por outros grupos em defesa do impeachment de Bolsonaro.

O diagnóstico do Planalto é que o comparecimento foi reduzido e deixou patente que a chamada terceira via --que defende uma opção que não Bolsonaro ou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)-- não tem até o momento o poder de mobilizar as ruas.

Estiveram presentes no ato da avenida Paulista os presidenciáveis João Doria (PSDB), governador de São Paulo; Simone Tebet (MDB-MS), senadora; Luiz Henrique Mandetta (DEM), ex-ministro da Saúde; e Ciro Gomes (PDT).

Em termos de comparecimento, Bolsonaro conseguiu colocar mais apoiadores nas ruas.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo estimou cerca de 6.000 manifestantes na Paulista neste domingo, contra 125 mil no ato bolsonarista de 7 de setembro e 15 mil na manifestação da esquerda no mesmo dia no Vale do Anhangabaú.

A contraposição do público de domingo com o das manifestações pró-Bolsonaro tem sido amplamente explorada por aliados do Planalto nas redes sociais.

De acordo com eles, as publicações que ironizam e até ridicularizam o MBL têm ajudado a manter a militância digital coesa em um momento importante, após a divulgação da "Declaração à Nação".

Assessores palacianos dizem não ser possível afirmar se a estratégia será suficiente para ofuscar as queixas sobre a nota de Bolsonaro. Porém, afirmam que, pelo menos por ora, a ofensiva digital tem mostrado resultados.

O próprio Bolsonaro ridicularizou os atos deste domingo. Em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, disse que os contrários ao governo são uma minoria e que eles são "dignos de dó".

"A maioria da população é de bem. Essa minoria que é contra --como os que foram às ruas ontem [domingo]-- são dignos de dó, de pena. O que eles pregam, o que eles falam, o que um cara falou em São Paulo da minha esposa é inacreditável. É sinal que não têm razão, perderam a noção da realidade, e vão para questões pessoais da família da gente. Não vão me tirar daqui com isso, de jeito nenhum", disse.

Nas mídias sociais, ministros do governo ironizaram as manifestações. Gilson Machado (Turismo) publicou no Twitter um vídeo em que ri e diz: "Vamos ver se eles vão brigar com as imagens agora".

Já Fábio Faria (Comunicações) elegeu Mandetta como alvo. "Mandetta, pode ir para a manifestação que o distanciamento social está sendo 'totalmente respeitado' em todas as manifestações de hoje."

A deputada Carla Zambelli (PSL-SP) compartilhou em suas contas registros das duas manifestações. "Juntaram todos os inimigos e a oposição do presidente Jair Bolsonaro e não conseguiram [nem] sequer 1% do público de 7 de Setembro", escreveu.

Além de permitir uma reação digital, auxiliares palacianos também argumentam que os atos de domingo demonstram que a criação da terceira via eleitoral é artificial. Por ora, persiste no Planalto a leitura de que o nome mais provável para polarizar a eleição com Bolsonaro em 2022 é o de Lula.

O governo ainda espera lucrar nas urnas com o antipetismo, sentimento que esteva presente em alguns atos deste domingo. O PT não participou dos protestos do MBL, o que gerou troca de acusações na oposição.

Estavam previstas manifestações em 15 capitais, sendo o foco principal no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília.

Na tarde desta segunda-feira (13), o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) comentou, em entrevista à rádio Gaúcha, a crise institucional no país. Ele argumentou que muitas vezes um "clima de retórica mais forte" lança uma "cortina de fumaça sobre ações positivas" do governo.

Mourão afirmou ainda que não existe espaço atualmente para uma ruptura institucional no país.

"Há uma retórica forte por parte do nosso governo. Isso ninguém pode se contrapor. Mas não existem ações correspondentes a essa retórica. Por isso eu digo com tranquilidade que vamos prosseguir da forma como estamos. As nossas instituições são fortes, a democracia brasileira é forte e ela não vai ser manietada ou mudada por alguns discursos que ocorrem de um lado e de outro", disse.

O vice também afirmou que não abre qualquer espaço para conversas sobre o eventual impeachment de Bolsonaro. "Não aceito que falem comigo sobre impeachment, ninguém vem falar comigo sobre impeachment porque não aceito esse assunto."

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