Planeta celebra Primeiro de Maio inédito em meio a confinamento e recessão

Por Philippe SCHWAB, con las oficinas de la AFP en el mundo
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Profissionais da saúde e membros do sindicato francês CGT se manifestam em 30 de abril de 2020 em frente ao hospital público parisiense de La Pitié Salpêtrière
Profissionais da saúde e membros do sindicato francês CGT se manifestam em 30 de abril de 2020 em frente ao hospital público parisiense de La Pitié Salpêtrière

Sem manifestações ou desfiles. O planeta celebrava confinado este Primeiro de Maio, devido à pandemia de coronavírus, que já matou 235.000 pessoas e afeta profundamente a economia mundial, enquanto continua a alimentar a tensão entre Estados Unidos e China.

Este ano, o Dia Internacional do Trabalho, feriado em muitos países (com exceção de Estados Unidos, Canadá e Austrália) transcorreu sem concentrações, pela primeira vez na história dos sindicatos, que pediram outras formas de mobilização - nas sacadas, janelas, ou nas redes sociais.

Caso da Indonésia, onde a principal confederação espalhou faixas por 200 cidades e lançou uma campanha na Internet, convidando "a se manifestar em casa". Ou então em Zaragoza, na Espanha, com a população se manifestando de carro, com bandeirinhas e cartazes pela janela.

A principal reivindicação é que os salários sejam garantidos porque, como acontece no restante do mundo, a pandemia obrigou inúmeras empresas a reduzirem, ou suspenderem suas atividades.

Nas Filipinas, cerca de 23 milhões de pessoas, quase um quarto da população, estão ameaçadas pela fome, alertou o líder sindical Jerome Adonis.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), pelo menos 1,6 bilhão de pessoas podem perder o emprego, devido ao confinamento e à subsequente recessão histórica.

Já o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertou que dezenas de países correm o risco de ficar sem vacinas contra sarampo pelas restrições no transporte aéreo.

Os Estados Unidos, país mais afetado com quase 63.000 mortes, registrou mais de 30 milhões de pedidos de seguro-desemprego desde meados de março, um recorde.

Atingida pela cessação das viagens internacionais, a Boeing anunciou o lançamento de uma oferta de títulos de US$ 25 bilhões.

Na Europa, a gigante de voos de baixo custo Ryanair anunciou o corte de três mil vagas de trabalho.

- Tarifas da China -

A ladainha de números econômicos negativos continuava nesta sexta-feira.

A Espanha, um dos países mais atingidos pela pandemia na Europa, anunciou uma queda de 9,2% de seu PIB este ano. A atividade caiu 3,8% na zona do euro no primeiro trimestre, e 4,8%, nos Estados Unidos. E o segundo trimestre se anuncia ainda pior.

Nesse contexto, o presidente americano, Donald Trump, anunciou ontem que planeja impor tarifas alfandegárias contra Pequim. Ele alega ter de que o novo coronavírus veio de um laboratório em Wuhan, cidade chinesa onde a pandemia eclodiu no final de 2019.

Criticada pelo presidente dos EUA por sua gestão da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou nesta sexta-feira que quer investigar as origens animais do vírus e pediu à China que a "convide" para esse fim.

O organismo da ONU, que até agora elogiou a gestão da crise pela China, explicou que "acredita que vários estudos que desejam entender melhor a origem da epidemia na China estão planejados, ou em andamento".

Mas "a OMS não está envolvida atualmente nesses estudos na China", lamentou o porta-voz.

No total, a pandemia deixou 235.000 mortos em todo mundo e mais de 3,2 milhões de infectados, de acordo com um balanço estabelecido pela AFP nesta sexta-feira, com base em fontes oficiais.

O país com o maior número de mortes é o Estados Unidos, com mais de 63.000 (mais de 1 milhão de casos). Seguido pela Itália, com mais de 28 mil mortes e cerca de 205.400 casos; Reino Unido, com mais de 27.500 mortes (em torno de 171.200 casos); Espanha, com cerca de 24.800 mortes (e em torno de 215.200 casos); e França, com 24.594 mortos (e mais de 167.100 casos registrados).

O novo coronavírus matou 218 pessoas na França nas últimas 24 horas, balanço diário mais baixo das últimas cinco semanas, anunciou nesta sexta-feira o diretor-geral de Saúde, Jérôme Salomon.

Autoridades francesas anunciaram que o relaxamento das medidas de confinamento começaria em 11 de maio, mas os avanços serão mais lentos nas regiões mais atingidas pela Covid-19, como a de Paris e o nordeste do país.

Na China, foram contabilizadas 4.633 mortes pelo coronavírus. Em sua tentativa de retornar à normalidade, Pequim multiplica os testes em toda população, na esperança de erradicar definitivamente a pandemia.

Nesta sexta-feira, o país reabriu a Cidade Proibida na capital, no primeiro dia das férias de cinco dias por ocasião do 1º de maio. Devido às medidas de distanciamento social em vigor e à prudência dos cidadãos, o emblemático local turístico não recebeu muitos visitantes.

- Bilionários: 10% mais ricos -

O confinamento não afeta igualmente ricos e pobres: entre 18 de março e 10 de abril, a fortuna dos bilionários americanos aumentou cerca de 10%, ou seja, US$ 282 bilhões, principalmente devido aos ganhos no mercado de ações de empresas de tecnologia, de acordo com um estudo americano.

Na Europa, continente que paga o preço humano mais alto, com mais de 140.000 mortes, o Banco Central Europeu (BCE) afirma estar "pronto" para fortalecer seu arsenal de apoio à economia.

No Reino Unido, o pico da pandemia foi atingido, de acordo com o primeiro-ministro Boris Johnson, que prometeu revelar um plano de desconfinamento na próxima semana.

Com base em seu sucesso no combate à pandemia, a Alemanha adotou novas medidas para o desconfinamento, com a reabertura de locais de culto, museus e zoológicos.

Já cafés e restaurantes permanecerão fechados até pelo menos 6 de maio. A chanceler Angela Merkel descartou ainda a possibilidade de reabrir as fronteiras, por causa do risco de uma segunda onda pandêmica.

- Os "invisíveis da nossa sociedade" -

Na América Latina, onde a pandemia já causou mais de 11.000 mortes e 215.000 infecções, segundo dados oficiais, vários países consideram suspender algumas restrições.

Mas "um relaxamento imediato das medidas pode ser desastroso", alertou o diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Marcos Espinal.

Enquanto isso, em Cuba, atletas e músicos ensaiam nos telhados de suas casas. Como William Roblejo, um violinista de 35 anos. "Estou muito feliz, fiquei trancado por 20 ou 25 dias", diz ele, em Havana.

No Brasil, o confinamento foi prolongado no Rio de Janeiro até 11 de maio, decisão tomada contra a opinião do presidente Jair Bolsonaro, que defende a retomada da atividade econômica a todo custo.

A Índia prolongou o confinamento até 18 de maio, embora tenha aliviado a medida nas províncias com menor índice de contágio.

No Japão, o estado de emergência sanitária se estenderá além de 6 de maio, segundo insinuou o primeiro-ministro Shinzo Abe.

A Irlanda também prolongou o confinamento até 18 de maio, e as escolas e universidades retomarão as aulas apenas em setembro.

Na França, onde a tradição do Primeiro de Maio é especialmente importante, os sindicatos dedicaram o dia às "pessoas invisíveis da nossa sociedade", trabalhadores da saúde, ou caixas, que "continuam trabalhando, mesmo arriscando suas vidas".

Em Istambul, a polícia turca deteve vários líderes sindicais que manifestavam apesar das restrições.

Na Alemanha, este feriado despertou a preocupação das autoridades, com manifestações anticonfinamento da esquerda radical, da extrema direita e dos seguidores das teorias da conspiração.

Em Havana, a emblemática Plaza de la Revolución, que recebe todos os anos um desfile de cerca de um milhão de pessoas, conforme estimativas oficiais, estava deserta nesta sexta-feira.

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