Plano de Bolsonaro para tumultuar eleição era a pedra mais cantada de 2022

Supporters of Brazil's President Jair Bolsonaro hold a banner during a protest against censorship in front of the Federal Supreme Court in Brasilia, Brazil October 25, 2022. REUTERS/Adriano Machado
Foto: Adriano Machado/Reuters

A estratégia era mais previsível do que a presença de Neymar na lista de convocados do técnico Tite para a Copa do Mundo.

A quatro dias da eleição, com a campanha estilhaçada pelos tiros de Roberto Jefferson contra a policia e as pesquisas apontando o favoritismo resiliente do ex-presidente Lula (PT) para a eleição de domingo (30/10), Jair Bolsonaro (PL) botou o time em campo para tumultuar o processo e jogar dúvidas sobre a legitimidade do pleito.

O spoiler estava desenhado desde a articulação de seu ídolo Donald Trump para contestar o resultado das urnas nos Estados Unidos em 2020.

A nossa invasão do Capitólio já estava desenhada há muito tempo, mas ganhou corpo quando o ministro das Comunicações, Fábio Faria, fez um estranho pronunciamento sobre um suposto boicote de rádios do Nordeste às peças da propaganda partidária do candidato à reeleição.

Lula (PT), que espalhou universidades e mudou a realidade local com o maior programa de transferência de renda já realizado no país, lidera entre os eleitores da região com quase 70% das intenções de voto. Bolsonaro, que passou a vida chamando nordestino de “arataca”, “cabeçudo”, “pau de arara” e “paraíba” e atribui o desempenho do rival ali ao analfabetismo dos eleitores, soma 26% das preferências na última pesquisa Ipec.

Mas a culpa pela distância em relação ao rival, claro, é de uma suposta supressão de inserções partidárias do presidente em uma ou outra rádio local.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes, vê na performance um possível crime eleitoral para tumultuar o pleito. Ele já afirmou que a alegação bolsonarista carece de provas e se baseia em um levantamento realizado por uma empresa que não tem especialidade em consultoria.

As próprias emissoras acusadas contestam o levantamento apresentado como “prova”. Uma rádio, inclusive, relata que foi o próprio PL, partido do presidente, que deixou de entregar as inserções – tudo para poder dizer que seu candidato estava sendo prejudicado? A ver.

Uma outra emissora é comandada por uma apoiadora do presidente, o que faz até os microfones de seus estúdios desconfiarem de um autoboicote para promover a confusão.

A “auditoria de Taubaté”, como ficou conhecido o plano apresentado pelos governistas – em referência à falsa grávida da cidade que ficou famosa nacionalmente – tem o cheiro, a perna, o rabo e o chifre da encrenca e pode e deve ser tratada pelo xerife das eleições como tal. É agora, porém, que vem a fatura dos meses que antecederam o pleito nos quais Bolsonaro não fez outra coisa a não ser colocar em xeque a lisura do processo eleitoral e a imparcialidade de Alexandre de Moraes.

Qualquer decisão contrária ao presidente levará o presidente do TSE até o poço das calúnias já promovidas pela rede bolsonarista.

Para piorar, no mesmo dia um assessor do TSE que apontou a suposta falha nas inserções precisou ser exonerado sob justificativa de que atuava politicamente. Não demora para ele vir a público sob a pecha de “homem-bomba” da eleição.

Tudo balela. Nada disso estaria acontecendo se Bolsonaro, que rasgou a lei para ampliar os gastos do governo na tentativa de se reeleger, liderasse com folga as pesquisas.

A estratégia, como sempre, é semear desconfiança para plantar confusão.

Nas redes, já tem senador da base dizendo em voz alta que o melhor seria adiar as eleições. Para quando? A depender da turma, até o Dia de São Nunca, ou até que os trekkings e pesquisas apontem que os ventos mudaram.

Até lá, Bolsonaro seguirá vociferando contra adversários e o juiz da partida para poder fazer seu gol de mão.

A nova ofensiva contra o TSE acontece após uma reunião de emergência com os chefes das Forças Armadas na segunda-feira (26/10).

Após o encontro, o presidente anunciou que está se pintando para a guerra e irá recorrer até “às últimas consequências” da decisão de Moraes, que arquivou a ação governista e tenta agora apagar no ninho o princípio de incêndio com o qual o capitão sonha e deseja.

A escalada prenuncia um momento de tensão inédita desde a redemocratização. A História ensina que todo cuidado é pouco com qualquer rascunho de pretexto para novos golpes.

Da última vez que militares entraram em campo para intervir no processo político até que a temperatura baixasse os brasileiros levaram 21 anos para reconquistar seu direito de escolher seus presidentes.