Plano modelo para idosos pode sofrer impacto de mortes por coronavírus

CLÁUDIA COLLUCCI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A operadora de saúde Prevent Senior, que ganhou o noticiário por registrar a primeira morte por coronavírus no Brasil, consagrou-se nas últimas duas décadas como um modelo de sucesso de assistência aos mais velhos, público que muitos planos querem distância pelos altos custos que representam.

Fundada há 23 anos na Mooca, na zona leste de São Paulo, pelos irmãos Eduardo e Fernando Parrillo, a empresa tem uma rede de oito hospitais (Sancta Maggiore), quatro pronto-atendimentos, além de uma rede de medicina avançada e diagnóstica e núcleos de especialidades.

Em cinco anos, viu crescer o seu faturamento de R$ 1 bilhão em 2014 para 3,5 bilhões, em 2019. No mesmo período, o lucro passou de R$ 56 milhões para perto de R$ 410 milhões. Isso com uma carteira de 456 mil beneficiários, a maioria (346 mil) com 61 anos ou mais. Entre eles, 258 têm cem anos ou mais.

A operadora tem mensalidades na média de R$ 800, e todos os contratos são individuais, outra raridade no setor suplementar, em que 80% do mercado está ancorado nos contratos empresariais ou coletivos.

Os reajustes anuais também costumam ficar abaixo da média dos concorrentes. Em 2018, a Prevent Senior aplicou menos da metade do aumento definido pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) -6,5%, ante um reajuste permitido de 13,5%. Entre os planos coletivos, o aumento chegou a 20%.

A taxa de sinistralidade da empresa (relação entre quanto a empresa recebe e quanto ela gasta com serviços de saúde) é de 68%, uma das menores do mercado de saúde suplementar.

Para especialistas do setor, uma das hipóteses que explicariam o sucesso do negócio da Prevent Senior é o investimento em promoção à saúde e prevenção. Ou seja, tentar evitar que a doença ocorra ou se agrave, levando o beneficiário a internações, um dos itens que mais pesa nas contas das operadoras.

"Eles trabalham com essa população muito além da assistência médica. Têm adesão das pessoas, a rotatividade é menor do que nos planos corporativos. E a empresa tem feito ações de promoção à saúde e de ganhar a confiança do cliente", diz Ana Maria Malik, coordenadora do centro de estudos de gestão de saúde da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Com a chegada da pandemia de coronavírus e cinco mortes registradas pela Prevent Senior, há uma especulação no setor sobre se a empresa terá saúde financeira para superar esse momento crítico. Não só pelo aumento da sinistralidade da carteira (mais pacientes na UTI, por exemplo), mas também por um eventual abalo na reputação.

No caso da primeira morte, a família do porteiro de 62 anos diz que não houve atendimento adequado nos dias que antecederam a sua morte. Afirma que o homem, que tinha diabetes, hipertensão e problemas renais, chegou a ir cinco vezes ao hospital e lá disseram que não havia necessidade de fazer o teste diagnóstico. O exame foi feito só quando o estado do paciente piorou. A empresa não se manifestou sobre essa queixa.

A prefeitura também está investigando porque a Prevent não avisou o poder público que a Covid-19 havia sido confirmada. Isso só aconteceu após a morte do porteiro.

Nesta quarta, eram 33 pacientes na UTI do Hospital Sancta Maggiore Paraíso, 12 positivos para Covid-19 e 21 aguardando resultado de exame. Outros 90 estavam em apartamento, 16 com resultado positivo e 74 ainda à espera da confirmação do diagnóstico.

Para José Cechin, superintendente-executivo do Iess (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar), a Prevent Senior deve ter entrado nessa crise com uma boa saúde financeira. "A gente ouve que ela estava bem capitalizada. Essa é uma crise que tem data para começo e fim."

Segundo ele, é natural que a empresa tenha um impacto maior do que em outras operadoras de saúde. "Ela tem um público mais velho e o que dizem as experiências dos outros países é que as pessoas que vão ter quadros mais graves pelo coronavírus e vão precisar de cuidados mais intenso são as de mais alta idade."

Na opinião de Paulo Furquim de Azevedo, coordenador do centro de estudos de negócios do Insper, o abalo na empresa pode ser mais do ponto de vista reputacional do que assistencial.

"Muita gente ainda pode morrer na Prevent Senior. Não necessariamente porque ela seja ruim, mas porque tem uma carteira de muitos idosos e eles estão numa condição muito mais vulnerável", afirma.

Sobre o impacto na assistência, Furquim avalia que, embora a previsão seja que a pandemia gerará mais gastos no setor, uma operadora focada na assistência a idosos já deve estar preparada para mais internações, por exemplo.

"É bom lembrar que esse idoso já tem diabetes, doenças crônicas, e que já teria uma probabilidade alta de ser internado por essas razões", afirma.