Plantações no Sul do país são destruídas por extremos climáticos e tempestade prevista não é suficiente para recuperar estragos

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Moradora de Ipê, na Serra Gaúcha, Sandra Campagnollo leva produtos de sua propriedade familiar de agricultura ecológica e orgânica, para feiras toda sexta, no próprio município, e aos sábados, em Porto Alegre. Há dois dias, só pôde vender tomates e cebolas e um pouco de alface dado pelo vizinho. Os cultivos de couve-flor, brócolis, couve, alface, tomate, melão, melancia, abobrinha, cenoura e beterraba foram perdidos com a seca.

— Temos três açudes e as três estão secas, tenho mais nada de produto verde. O sol está muito forte, se você não tem uma irrigação boa, tudo queima — lamenta Campagnollo, que prevê uma retomada da produção apenas no meio do ano. — Depois que voltar a chover, leva pelo menos dois meses para ter a produção de volta. Não adianta plantar agora, porque não vai vingar.

Sandra é uma das vítimas dos prejuízos sociais e econômicos de uma das mais severas ondas de calor já registradas no Rio Grande do Sul, assim como em parte de Argentina, Uruguai e Paraguai, com temperaturas até 7°C acima das máximas históricas. Um exemplo do que os extremos climáticos são capazes de provocar.

A água disponível hoje em poços artesianos nas comunidades rurais de Ipê só é suficiente para consumo próprio ou para os animais. Moradores recorrem ao escambo com vizinhos e precisam conciliar as perdas financeiras com a necessidade de gastar mais nos mercados.

Sandra vive numa propriedade de três hectares com seus pais e o filho de 14 anos. Ela conta que a situação desmotiva os jovens, que hoje em dia preferem buscar outros trabalhos, por vezes nas áreas urbanas.

— Meu filho vê que a produção está toda morrendo, e aí vai viver do quê? Isso muda a cabeça, ele tem mais vontade de viver de outro negócio. É difícil dar continuidade ao negócio familiar assim, hoje vemos poucos jovens na agricultura — diz. — É a pior estiagem que já vivemos. Não dá para olhar, está tudo morto.

A bolha quente do Sul pode ser apenas o início de um ano que, as projeções climáticas indicam, será ainda mais severo do que 2021, globalmente o sexto mais quente, numa série ininterrupta de sete anos de elevação da temperatura da Terra, segundo dados da Nasa apresentados na quinta-feira.

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