Plataforma com inteligência artificial busca prevenir desmatamento na Amazônia

O ditado diz que é melhor prevenir do que remediar. E aplicar a sabedoria popular é particularmente importante quando se trata de evitar o desmatamento na Amazônia. Afinal, o custo ambiental, social e financeiro para o país e a sociedade é muito maior quando a floresta vai abaixo, principalmente quando se fala em redução das emissões de carbono.

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Pensando nisso, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), a empresa de tecnologia Microsoft e o Fundo Vale se uniram para desenvolver a Previsia, plataforma com inteligência artificial embarcada que aponta áreas e regiões com alto risco de desmatamento e pode ser consultada por qualquer um no site previsia.org.br. A ferramenta estima, por exemplo, que se nada for feito a Amazônia poderá perder mais 11.805 km² de mata nativa.

- Quando falamos de uma ferramenta que ajuda na prevenção do desmatamento, quem mais pode agir são os governos. Queremos sensibilizar os governos ao fornecer informações estratégicas para sua tomada de decisão, mas a plataforma também é importante para a sociedade civil, que assim consegue monitorar uma área de seu interesse, pressionar governos e deputados em quem votaram. Traz informação e transparência -, afirma Lucia Rodrigues, líder de Filantropia e Sustentabilidade na Microsoft.

Segundo ela, 95% do desmatamento acumulado se concentra em faixas de cinco quilômetros ao longo de todas as estradas da Amazônia – as legais e ilegais criadas por grileiros.

A Previsia já mostrou seu valor ao ter um índice de assertividade em torno de 78%: previu que o desflorestamento em 2022 seria de cerca de 15 mil km² e, segundo o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento chegou a 11,56 mil km².

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De acordo com o Imazon, o nível de detalhamento com que os dados da plataforma são apresentados, permite ações em pontos estratégicos de grandes áreas como, por exemplo, em Altamira (PA), região conhecida pelo desmatamento ilegal.

Dessa maneira, em uma eventual futura política de combate ao desmatamento, em vez de se colocar o município todo em alguma lista de embargo, o que prejudicará a economia da cidade, o sistema permite identificar – e atuar - apenas nas áreas mais ameaçadas do local.

- Se o combate ao desmatamento tiver um foco geográfico exíguo, melhor - reforça Lucia, lembrando que a Amazônia é maior que a Europa.

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Ela exemplifica dizendo que é possível apontar onde há maior risco dentro de uma terra indígena e, assim, evitar a ação. Isso permite, diz, que os órgãos governamentais atuem de maneira preventiva e localizada.

Para entregar seus prognósticos, a ferramenta além de fazer o reconhecimento via satélite de estradas legais e ilegais, também cruza essas informações com dados como atividade econômica (onde há madeireira e outras atividades que possam gerar desmatamento), topografia, cobertura do solo, infraestrutura e histórico de derrubada, para determinar as áreas e regiões sob risco iminente de devastação.

Segundo os dados da Previsia, neste ano, os maiores indícios de desmatamento estão no Pará, Amazonas e Mato Grosso, com 73% da área ameaçada. No entanto, as florestas mais ameaçadas no Acre e em Rondônia estão na fronteira com o Amazonas, onde se registra expansão da agropecuária.

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Até a entrada em funcionamento do Previsia, só havia previsões de desmatamento de longo prazo, por décadas. A situação levou o Imazon a desenvolver um modelo capaz de fazer as estimativas anuais. No entanto, para processar todos aqueles dados e colocar o modelo em operação, o instituto precisava de uma plataforma computacional robusta. É aí que entra a gigante de tecnologia.

-Decidimos, então, levar o poder computacional da Microsoft, para fazer com que as previsões pudessem ser feitas para a Amazônia inteira e disponibilizar as informações para quem quisesse - conta Lucia.

Já o Fundo Vale mobilizou recursos financeiros que foram investidos no projeto.

Segundo Carlos Souza Júnior, coordenador do Programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon e responsável técnico pela Previsia, a plataforma foi colocada em funcionamento em 2021, depois de a instituição ter conseguido capacidade de processamento em nuvem para rodar o modelo e criar um algoritmo de IA para mapear estradas, graças à parceria com Microsoft e Fundo Vale. Depois de testes, agora foi aberta e disponibilizada a todos.

- Uma coisa que o Carlos [Souza Júnior, do Imazon] sempre fala é que nós queremos errar. Lançamos essas previsões e esperamos que estejamos errados, pois isso significa que os dados foram usados para prevenir a derrubada da floresta. É uma ferramenta para ser usada e evitar que isso não aconteça - diz Lucia, da Microsoft. - Queremos que o Brasil se consolide como uma grande potência da economia verde, como um país que sabe crescer respeitando a bioeconomia de forma positiva.