Plataformas como OnlyFans e Privacy abrem debate sobre preconceito e independência

No início de julho, a ex-“BBB 21” Lumena Aleluia imitou outros 75 mil brasileiros e passou a expor sua intimidade no Privacy, uma plataforma nacional de conteúdo adulto. Funciona assim: cada criador ou criadora mantém um perfil com fotos e vídeos exclusivos, cobrando assinaturas mensais que vão de R$ 5 a R$ 200 (a de Lumena sai por R$ 79,90). O grau de erotismo varia entre milhares de famosos e anônimos. Tem quem fique só nas poses sensuais e sugestivas. E tem quem ofereça nudez (como Lumena) e até sexo explícito.

Até recentemente, poderia ser alguma revista masculina a disputar a publicação de conteúdo sensual de uma celebridade. E cabiam às equipes desses títulos, majoritariamente compostas por homens, definir o formato do conteúdo final. Hoje, porém, veículos do tipo escassearam (a icônica Playboy, por exemplo, deixou de circular em 2018) e o novo modelo está sendo capitaneado globalmente por plataformas como a britânica OnlyFans e nacionalmente pela Privacy.

Lumena conta ter total autonomia tanto no “processo criativo” quanto no ritmo de produção — ou seja, o tipo e volume de material que irá compartilhar com seus seguidores.

Outro detalhe importante é que ela define o valor de sua mensalidade e a embolsa diretamente (ou quase: a plataforma fica com 20%). Na primeira semana, Lumena faturou R$ 100 mil com os nudes no Privacy.

— Hoje, muitas meninas se sentem mais corajosas fazendo o seu próprio conteúdo — observa a DJ e psicóloga de 31 anos. — No passado, muitas produções audiovisuais desse universo do erótico acabaram acarretando em violência contra atrizes, que estavam ali restritas a uma equipe, muitas vezes compostas por homens que não têm ou não tinham uma certa sensibilidade na condução do processo. Poder produzir em casa, produzir no seu quarto, no seu banheiro, com o seu aparelho, é de um avanço de uma liberdade assim sem igual.

‘Mostro minha verdade’

Os serviços de assinatura mudaram a forma de produzir e consumir conteúdo +18. A mais importante plataforma do gênero, OnlyFans, foi criada no Reino Unido em 2016 e reúne hoje, segundo estimativas, entre 26 milhões e 50 milhões de usuários. Entre os inscritos estão celebridades brasileiras (como Anitta, Valeska Popozuda e Geisy Arruda) e estrangeiras, como Cardi B. e Chris Brown.

A pandemia ajudou a expandir esse mercado, com anônimos buscando formas de renda sem sair de casa. A Privacy, que conta com 16 milhões de usuários, foi lançada em 2020 para concorrer com o OnlyFans. E agora o próprio PLBY Group Inc, dono da marca Playboy, teve que se reinventar criando uma ferramenta nos mesmos moldes, a Centerfold (termo em inglês para a página central que na antiga Playboy impressa trazia um pôster dobrável).

São duas eras do nu — e ambas foram vividas pela modelo, apresentadora e artista plástica Pietra Príncipe. Em 2013, ela posou para a Playboy — e não se sentiu bem “representada”. Hoje mantendo um canal no OnlyFans com assinatura mensal de US$ 50 (cerca de R$ 250), ela conta nunca ter se sentido tão livre. Mais do que simplesmente vender sua nudez, a criadora faz uma espécie de crônica visual da sua intimidade.

— Minha imagem não se encaixa num ideal de perfeição, jamais vou esconder uma espinha ou usar Photoshop — diz Pietra, de 38 anos. — Você não vai me ver usando pink e tentando emular a juventude que já passou. Antes, eu tinha que escolher entre ser a nerd ou a gostosa. Já aqui eu mostro a minha verdade, que é o que o cara quer ver no OnlyFans. Mesmo nos dias em que não estou feliz ou sorridente, é isso mesmo que deixo aparecer, uma melancolia erótica.

Segundo Pietra, a plataforma é o espaço menos “tóxico” que frequentou na internet. A modelo, que já teve que fechar seus comentários no Instagram para evitar mensagens inapropriadas, conta que só encontra palavras respeitosas de seus assinantes. Ela faz um alerta, porém, às criadoras mais jovens, que estão ingressando agora na plataforma.

— É algo que requer preparo e vivência — diz ela, que deixa bem claro aos seus assinantes que não produz pornografia. — Tudo sempre pode se voltar contra uma mulher.

Foi o que aconteceu com Lumena, que após ingressar no Privacy acabou sendo acusada, entre outras coisas, de fetichizar o corpo negro. Conhecida por seu ativismo feminista e racial, que deu o que falar no “BBB 21”, a psicóloga conta que recebeu mais ataques por entrar na plataforma do que por sua polêmica participação no reality. Ela vê essas críticas como um “retrocesso”.

— Não consigo conceber a possibilidade da pauta feminista que desconsidere a existência de mulheres que trabalham com conteúdo adulto — diz Lumena. — Que feminismo é esse que delimita ou hierarquiza vivências de ser mulher? Produzir conteúdo 18+ é uma experiência que está dada, está posta na nossa agenda econômica, tecnológica, artística, midiática. Mas, em paralelo às críticas, recebi uma enxurrada de apoio e, sobretudo, de inscrições né, bebê?! Os meus fãs e as minhas fãs não soltaram a minha mão.

Ao transformar os seus produtores de conteúdo em empreendedores de si mesmos, os serviços de assinantes apostaram na chamada “uberização” do corpo erótico. E, como em outras áreas, toda maior autonomia traz seus desafios.

— A maior dificuldade ainda é a retenção de assinantes — diz Pedro Albuquerque, CEO da Santa Caliente, uma agência que assessora criadores de conteúdo adulto. — Quando você pega uma pessoa que é famosa, ou uma influenciadora com 50 mil seguidores, ela tem uma demanda reprimida de pessoas que querem ver conteúdo mais sensual dela. Mas, uma vez que todos já viram o que tinham para ver, param de assinar.

Tentando se manter em evidência e angariar mais assinaturas, personalidades como Geisy Arruda ou MC Mirella usam suas assessorias para transformar seus posts em notícias bombásticas para a mídia (na linha fulana “expõe nova tatuagem” ou “provoca os fãs com pose ousada”). Mas há também caminhos mais orgânicos de crescimento, como o uso constante das redes sociais, explica Albuquerque.

Construir um relacionamento duradouro com os fãs é outra estratégia importante. Em geral, os assinantes não estão apenas comprando imagens avulsas, mas acompanhando uma pessoa em sua vida privada. Pensando nisso, a jogadora de vôlei Key Alves passou a fortalecer uma interação direta com o seu público. Antes de abrir uma conta no OnlyFans, que reúne atualmente três mil assinaturas, ela já tinha o hábito de postar suas fotos sensuais (sem nudez) no Instagram. Ao perceber que 92% dos seus seguidores na rede social eram homens, decidiu monetizar o que era apenas hobby. Hoje, ganha mais com a plataforma do que nas quadras como líbero do Osasco Voleibol Clube — ainda que se considere, antes de tudo, uma atleta profissional.

— Tenho uma equipe que me ajuda a interagir com os assinantes todos os dias, isso é muito importante para que o número não caia — diz ela, que já recebeu pedidos específicos, como fotos dos pés. — Muitos têm essa fantasia de conversar com uma mulher conhecida, é algo que nunca imaginavam que iriam conseguir.

A popularização de plataformas como OnlyFans e Privacy não mudou apenas a indústria erótica. O uso da internet de forma geral acabou sendo impactado por essa dinâmica, acredita André Alves, psicanalista e pesquisador de cultura e comportamento.

— O que acontece no OnlyFans não fica apenas no OnlyFans. As outras redes vão ficando mais e mais sensuais. — diz Alves. — O criador de conteúdo que cozinha só de avental vai ter mais views do que o que cozinha vestido. Para vencer no jogo da viralidade é preciso se objetificar mais, assim como mais gente passou a fazer dancinhas em outras redes depois do TikTok.

Para o psicanalista, é importante que a sociedade tenha consciência do poder que dá a essas plataformas:

— Por um lado, essas plataformas estão possibilitando novos corpos, novos jeitos de olhar e de ser olhado. Por outro, há cada vez mais pessoas dependentes financeiramente delas. A pergunta que se deve fazer é: isso é mais aprisionante ou mais emancipatório?

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