‘Playmode’, mostra no CCBB RJ, procura levar à reflexão com obras que remetem a jogos

“Os jogos das crianças não são apenas jogos: são sua atividade mais séria”, escreveu o filósofo francês Michel de Montaigne em um de seus “Ensaios” (1580). Esta epifania do século XVI ilustra bem a exposição que entra em cartaz hoje no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro e fica até 12 de outubro. Com mais de 40 obras inspiradas em jogos tão diversos como futebol, xadrez e videogames(ver ao lado), a mostra “Playmode” busca promover reflexões sobre assuntos que não são brincadeira.

— É importante ressaltar que não se trata de uma simples exposição de jogos, onde você vem para ficar jogando — explica Filipe Pais, que assina a curadoria da exposição com a também portuguesa Patrícia Gouveia. — Reunimos obras com atrativo lúdico, várias interativas, mas que também convidam o visitante a pensar em temas como política, meio ambiente, relações internacionais, até mesmo questões existenciais.

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A “Playmode” chega ao Rio após uma temporada de sucesso no CCBB Belo Horizonte. A exposição foi realizada pela primeira vez em Lisboa, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT). Depois do Rio, ela será também exibida nos CCBBs de São Paulo (a partir de 25 de outubro) e Brasília (a partir de 1º de fevereiro de 2023).

Com obras de 28 artistas de Brasil, Alemanha, Croácia, Estados Unidos, França, Grécia, Japão, Nova Zelândia e Portugal, a “Playmode” divide os trabalhos em três eixos: “Modos de desconstruir, de modificar e de especular”, “Modos de participar e de mudar” e “Modos de transformar, de sonhar e de trabalhar”.

No primeiro eixo, encontram-se obras que brincam com atividades conhecidas e suas regras. Há vídeos que subvertem games famosos, como “Super Mario Sleeping”, do grego Miltos Manetas, em que o normalmente frenético encanador da Nintendo passa o tempo inteiro dormindo. “Elegy: GTA USA Gun Homicides” (do americanos Joseph DeLappee) e “San Andreas Deer Cam” (de seu compatriota Brent Watanabe) surpreendem ao usar cenários da série de games ultraviolentos “Grand Thef Auto” justamente para expor a violência.

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Sotaque brasileiro

Este eixo também inclui obras de artistas brasileiros que transformam os tabuleiros de jogos físicos. Em “Mesa de jogos”, Marcius Galan e Laura Lima colocam sobre o mesmo plano elementos de xadrez, sinuca e outros, desafiando os jogadores a criarem suas próprias regras e objetivos.

A instalação “Xadrez auto-criativo (XAC)”, de Ricardo Barreto e Raquel Fukuda, propõe uma alteração sutil no jogo milenar, mantendo suas regras: em vez da distribuição tradicional de peças, os visitantes encontram tabuleiros com um batalhão de bispos, com dois reis ou ainda só com peões. Sim, leitor enxadrista: pode jogar.

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Nesta parte também se destacam obras de Nelson Leirner (1932-2020). Está em evidência “Futebol”, em que o artista plástico, dentro de seu estilo de colagem, forma uma torcida e dois times com todo tipo de bonequinhos de plástico.

— A primeira versão da mostra, no MAAT, era eurocêntrica — admite o curador. — Por sorte, ela veio para o Brasil e passou por um processo de adaptação riquíssimo, integrando artistas brasileiros que têm um trabalho fortíssimo.

Interação e reação

No segundo eixo, os destaques são os videogames que oferecem uma reflexão sobre assuntos atuais — os chamados serious games. Em “Papers, please”, do americano Lucas Pope, o jogador se vê no papel de um impiedoso burocrata de fronteira que verifica documentos de imigrantes. Em “The graveyard”, da dupla belga Auriea Harvey e Michaël Samyn, a correria dos jogos em primeira pessoa é substituída pelo lento passeio de uma senhora por um cemitério. A maior tela é a de “Everything”, de David O’Reilly, game de simulação em que o objetivo é conectar criaturas e objetos e aos poucos construir um universo. De bônus, o jogador ganha citações do filósofo Alan Watts.

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O terceiro eixo da mostra ressalta o poder dos jogos em construir sonhos. Um dos destaques é a dupla de vídeos “For a better world” e “To the playground”, da artista portuguesa Priscila Fernandes. No primeiro, ela registra crianças simulando atividades de adultos, como uma ida ao supermercado. No segundo, são os adultos que brincam em uma pracinha — a princípio, desajeitados, mas logo encarando um gira-gira com desenvoltura.

— O jogo está em tudo — diz Filipe Pais. — É usado para vender produtos, treinar militares, recolher dados pessoais. Esta exposição busca chamar atenção para esta situação, é a ponta do iceberg do grande jogo que se tornou a nossa vida moderna.

"Playmode". Onde: Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Primeiro de Março 66, Centro. Quando: Seg e de qua a sáb, das 9h às 21h. Dom, das 9h às 20h. Até 12 de outubro. Quanto: Grátis.

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