Plebiscito foi revanche do Chile rural contra progressismo de Santiago, diz analista

SANTIAGO, CHILE (FOLHAPRESS) - Mais do que um confronto entre esquerda e direita, o plebiscito deste domingo (4), no Chile, em que a nova Constituição foi rejeitada, marca um confronto de gerações e uma derrota de Santiago frente ao resto do país, na visão de Eugenio Tironi, experiente sociólogo e consultor político.

Para ele, a Assembleia Constituinte errou, ao não perceber o descontentamento de parte da sociedade que embarcou em uma onda conservadora, mas o presidente Gabriel Boric tem a chance de melhorar sua gestão se aprender com as lições da derrota. O esquerdista, na visão do sociólogo, vem lidando habilmente com a negociação política.

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PERGUNTA - O que significou o resultado do plebiscito? ]

EUGENIO TIRONI - Sabíamos que o mais provável era que a rejeição ganhasse, mas não com essa contundência e esse nível de participação. Havia um padrão nas últimas eleições do voto de mulheres, jovens e urbanos indo para a esquerda, enquanto homens rurais votavam à direita.

Foi uma grande vingança do mundo rural contra jovens progressistas de Santiago. Uma espécie de tentativa de fazê-los ver a realidade, de voltar a valorizar símbolos pátrios, combater uma ideia de fragmentação com outra de unidade, colocar a segurança antes da mudança climática.

P - É correto analisar o plebiscito como um enfrentamento de direita contra esquerda?

ET - Esse aspecto existe, mas foram vários confrontos: um geracional, dos mais velhos contra certa soberba desse governo jovem; da periferia do país contra Santiago; e de uma rejeição transversal à ideia da plurinacionalidade. Esse é um tema duro no Chile, parte de nosso mito fundacional é que somos um país unitário, mestiço, sem diferenças raciais ou étnicas —e que é isso que nos diferencia de Bolívia, Peru ou Equador.

P - O episódio da performance em Valparaíso que escandalizou a campanha, quando um ator tirou uma bandeira do Chile do ânus de outro, teve impacto, não?

ET - Seguramente, porque foi um lembrete de episódios que chocaram parte importante da sociedade nos últimos dois anos —como quando instalaram a Constituinte e não quiseram tocar o hino nacional ou quando colocaram no salão principal as bandeiras de todas as nações indígenas, mas não a nacional. Foi a partir daí que a bandeira chilena virou o símbolo da rejeição e se cantou o hino em vários de seus atos, assim como na comemoração do domingo.

P - A Assembleia Constituinte se equivocou?

ET - Sim, ao não perceber que parte da população vinha sentindo um descontentamento em escalada desde o início da pandemia. Pode-se dizer que ela não dialogou com esse sentimento, de fundo mais conservador e recente. Ele não tem a ver com o pinochetismo, mas é enraizado em problemas do Chile de hoje e desembocou na vitória de [José Antonio] Kast no primeiro turno [da eleição em 2021]. Esse setor considerou o texto extremo, com manifestações de tom ideológico. Houve um descompasso entre a tendência de parte da população e os desejos dos constituintes.

P - O senhor crê que, por fim, haverá uma nova Constituição? Um acordo é possível?

ET - Sim, obviamente. É preciso ter cuidado ao interpretar o domingo. Já cometemos o pecado de superinterpretar as manifestações de 2019: achamos que era sinal de uma tendência histórica, que estávamos vendo o nascimento de uma nova sociedade, menos nacionalista, sintonizada com pautas geracionais contemporâneas. Mas é possível que tenha sido apenas um momento.

E também temos de olhar assim o plebiscito. Talvez não seja um sinal de uma tendência inequívoca ao conservadorismo. Nos dias de hoje, as reações políticas são muito oscilantes.

P - Se for assim, a derrota de agora pode ser a vitória de amanhã?

ET - Claro, o que está sendo visto como a derrota dessa nova esquerda pode ser uma melhora no atual governo a médio prazo, desde que se abrandem posições extremas. É preciso lembrar que esse grupo político rompeu um tabu que dizia que era impossível mudar a Constituição. Eles levaram o limite do possível um pouco mais adiante. E será difícil que, mesmo com a pressão da direita, sejam retirados da nova Carta a questão ambiental, a paridade de gênero, a descentralização administrativa.

Essa nova esquerda pode se chatear e dizer que subiu ao palco e não foi aplaudida, mas é certo que conseguiu colocar a música da festa.

P - Há risco de polarização?

ET - Não vejo isso, decido ao estilo de Boric e da tradição institucional do Chile. Ele se criou no ambiente parlamentar, sabe dialogar. É um estilo novo, mais informal e diferente do [ex-presidente Sebastián] Piñera, mais conflitivo. E no Chile não há divisão como na Argentina. Quando [Jair] Bolsonaro comentou sobre o suposto envolvimento de Boric com atos de vandalismo, todos os partidos se perfilaram em solidariedade a ele. A questão de soberania nacional é muito forte aqui.

Porém, vejo risco de fricção com a direita porque, com a força dos votos da rejeição, os partidos podem pedir uma participação no programa de governo, nas reformas econômicas. É possível que o governo tenha de ceder.

P - A demora em chegar à nova Carta pode trazer um suspense negativo para a economia?

ET - A economia já não vem bem de todo modo. Não é a estabilidade política que a afetaria mais do que outros fatores. O Peru é pura instabilidade e cresce mais que o Chile. O problema é que estamos num momento de recessão muito grande, devido à injeção de dinheiro na pandemia com ajudas do governo e saques nos fundos de pensão, sem contar a Guerra da Ucrânia.

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RAIO-X

EUGENIO TIRONI, 71

Doutor em sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e membro da Academia de Ciências Sociais, Políticas e Morais do Instituto do Chile. Foi colaborador dos governos Patricio Aylwin e Eduardo Frei e chefe de comunicação de Ricardo Lagos