PM acusado de disparar contra mulher no Alemão afirmou que achava que seria atacado por criminosos armados

O cabo da PM Eduardo Nunes Rodrigues Junior, que confundiu uma colega de farda com um criminoso e acabou baleando Letícia Marinho Sales, de 50 anos, durante operação no Alemão, disse que achou que "criminosos armados em fuga atentariam contra sua equipe". Em depoimento na Delegacia de Homicídios (DH), Rodrigues Junior afirmou que, antes de atirar, viu "um indivíduo que empunhava uma pistola ostensivamente, com possibilidade concreta de efetuar disparos contra o declarante e seus colegas". Ao todo, o cabo atirou 12 vezes.

A pessoa armada que o PM viu, no entanto, também era policial: a soldado Geniffer dos Santos Nunes, que deixava o serviço na favela num carro particular. Letícia, que não morava no Alemão e foi até a região visitar as filhas e uma amiga pastora, estava na linha de tiro e foi atingida no peito. O cabo foi afastado do patrulhamento pela PM. Ao todo, 18 pessoas morreram na operação conjunta das polícias Civil e Militar no Alemão.

Em seu relato à Polícia Civil, Rodrigues Junior contou que, na manhã do último dia 21, integrava uma equipe de agentes que reforçava o policiamento no entorno do Alemão naquela manhã. Ele estava baseado na Estrada do Itararé, um dos acessos ao complexo de favelas, em frente ao Colégio Estadual Jornalista Tim Lopes, quando viu dois veículos pararem lado a lado num sinal de trânsito a sua frente. Nesse momento, segundo o cabo, ele suspeitos dos carros "porque além da película escura, os vidros estavam fechados". Um dos carros era o Chevrolet Prisma ocupado por Letícia e mais dois parentes. O outro era um Hyundai i30 de cor prata, do outro lado da pista.

Em seguida, ainda de acordo com o cabo, ele "visualizou que o carona do veículo Hyundai baixou o vidro e colocou uma pistola para fora, sendo que nesse momento o veículo Chevrolet tapava parcialmente a visão do declarante". Rodrigues Junior diz que não conseguiu visualizar quantas pessoas havia nos veículos nem se havia mulheres — só viu o "indivíduo armadado". O PM afirmou que foi o único integrante da sua equipe a disparar e que nenhum dos ocupantes dos veículos atiraram em sua direção. Após os disparos, os dois carros aceleraram.

Um dos disparos atingiu o retrovisor do Chevrolet Prisma que estava à frente e, em seguida, acertou Letícia, que estava no banco do carona. A mulher foi socorrida pelo namorado, que dirigia o carro, para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Alemão, mas já chegou morta à unidade de saúde.

A soldado Geniffer Nunes, lotada na UPP Alemão, também prestou depoimento e confirmou que era ela quem ocupava o banco do carona do i30 e empunhava uma pistola na ocasião. Ela disse que estava deixando o serviço na favela e pegou uma carona com um colega, o cabo Sérgio Rodrigues, para ir até a base da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), que fica fora do Complexo do Alemão, para que ela pudesse pedir um carro por aplicativo para voltar para casa. Segundo Geniffer, ela estava fardada e Rodrigues, à paisana. Quando o carro passou pela patrulha, o motorista diminuiu a velocidade e abriu os vidros do carro "devido à tensão que havia em toda a região".

Geniffer disse que, nesse momento, "colocou o corpo para fora do veículo e levantou as mãos, se identificando como policial, dizendo: 'Polícia, polícia!'". Ela diz ter visto um dos integrantes da equipe que estava baseada fazer um sinal com as mãos para que o carro seguisse e, em seguida, ouviu os disparos.

Além de Letícia, o motorista do i30, também foi baleado naa perna esquerda. O PM foi socorrido para a UPA do Alemão e, posteriormente, foi transferido para o Hospital estadual Getúlio Vargas e, em seguida, para o Hospital Central da PM. Os relatos dos policiais também foram confirmados por testemunhas que presenciaram a ação e viram a agente fardada no carro ao lado do ocupado por Letícia.

Procurada, a PM alegou que o cabo Eduardo Nunes Rodrigues Junior, apontado como autor dos disparos "está afastado dos serviços". Segundo a corporação, "a investigação do caso está a cargo da Polícia Civil e que a Corregedoria da Corporação colabora integralmente com a averiguação, além de ter instaurado procedimento interno". Já quanto ao estado de saúde do PM Sérgio Rodrigues, baleado na perna durante a ocorrência, a PM informa que "ele foi atendido no HCPM e liberado".

Mãe de três filhas e avó de três netos, Letícia morava na comunidade Beira-Rio, no Recreio dos Bandeirantes, a 30 quilômetros do Alemão. Ela estava desempregada e havia acabado de fazer um curso de vigilante para voltar ao mercado de trabalho. Um dia antes da operação, ela foi até a Vila Cruzeiro no dia anterior à operação para ajudar uma amiga pastora a organizar uma festa e visitar as filhas que moram na região. Letícia passou a noite na casa do namorado e estava voltando para casa no momento em que foi baleada.

No dia seguinte ao homicídio, as filhas de Letícia, Jenifer e Jéssica Sales, cobraram justiça e criticaram a ação da polícia quando foram liberar o corpo da mãe no Instituto Médico Legal (IML).

— Um policial vem e atira na minha mãe dessa forma? O que a minha mãe fez com ele? Ela levantou uma arma para matar ele? O que tinha na cabeça aquele homem? — disse Jéssica na ocasião.

A operação conjunta no Complexo do Alemão teve a participação de agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e tinha como objetivo coibir o roubo de veículos na região, segundo a polícia. O cabo da PM Bruno de Paula Costa, de 38 anos, e a moradora do Alemão Solange Mendes também estão entre os 18 mortos durante a ação.

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