PM do Amazonas executou 17 pessoas durante operação, diz prefeito de Manaus

FABIANO MAISONNAVE
*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 09.12.2017 - O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, em convenção nacional do PSDB. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), acusou nesta quinta-feira (19) a Polícia Militar do Amazonas de executar 17 pessoas para defender a facção criminosa Família do Norte (FDN) durante uma operação contra o narcotráfico na cidade, entre a noite de 29 de outubro e a madrugada do dia seguinte.

Segundo a polícia e moradores, nessa noite, integrantes da FDN tomaram uma área de venda de drogas da facção Comando Vermelho (CV), no bairro do Crespo, mas sem troca de tiros.

Acionada, a PM matou 17 pessoas, incluindo três adolescentes --um deles tinha 14 anos. Nenhum policial saiu ferido e nenhuma viatura foi alvejada. A polícia, que alega ter sido recebida a tiros, retirou todos os corpos antes da chegada da perícia ao local. 

"Não morreu ninguém [da polícia] porque eles atacaram pelas costas. Eram garotinhos ali", afirmou Virgílio Neto, em entrevista à rádio Difusora do Amazonas. "O grave: era uma equipezinha que tinha sido contratada pelo CV, e o pessoal foi lá muito mais para defender a Família do Norte. A esse ponto estamos chegando aqui."

Em outro trecho da entrevista, o tucano afirmou que as facções do narcotráfico comandam as invasões de terra na periferia de Manaus "sem serem reprimidas, à vontade, como se tivessem muitos amigos influentes". 

Em nenhuma das acusações, Virgílio mencionou provas. A relação do prefeito com o governo do Amazonas se deteriorou a partir do final de setembro, quando o seu enteado, Alejandro Valeiko, se envolveu no assassinato do engenheiro Flavio Rodrigues.

O crime aconteceu na casa de Valeiko. Imagens da segurança do condomínio mostram que o policial militar Elizeu de Souza, segurança de Virgílio, esteve no local na noite do crime, em um carro da prefeitura. Segundo a polícia, foi ele quem retirou o corpo do engenheiro, encontrado numa estrada.

A reportagem tentou entrar em contato com Virgílio, mas ele não respondeu ao pedido de entrevista até a conclusão deste texto.

Em nota, a PM disse que a acusação é "desrespeitosa e desprovida de verdade". "O prefeito faz ilações e não apresenta fatos concretos ao afirmar que policiais do 2º Batalhão de Choque Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam) protegem e defendem integrantes de um grupo criminoso local", diz o comunicado.

"Nossos policiais são qualificados e preparados para situações extremas e não se acovardam diante dos perigos", diz a nota da PM do Amazonas. "Rogamos a Deus, todos os dias, para sair e defender a população de bem e voltar para o seio de nossas famílias, que ansiosamente nos esperam." 

No início de dezembro, a reportagem solicitou uma entrevista sobre a investigação à assessoria de imprensa da Polícia Civil. No entanto, o delegado escalado para falar do caso, Paulo Martins, disse que, na hora da entrevista, não era o responsável pelas investigações.

A reportagem voltou a procurar a assessoria de imprensa da Polícia Civil, que se limitou a informar que o caso havia sido transferido para a Unidade de Apuração de Ilícitos Penais (UAIP), com apoio do Departamento de Repressão ao Crime Organizado. Apesar de pedidos reiterados, nenhuma entrevista nova foi marcada.

O atual secretário da Segurança Pública, coronel da PM Louismar Bonates, negociou em 2015 a ampliação do poder da FDN no sistema carcerário em troca de "paz nas cadeias", aponta investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

O relatório da PF foi enviado ao Ministério Público Estadual, que não apresentou denúncia contra Bonates, à época secretário de Administração Penitenciária. Ele nega a negociação.

A FDN protagonizou dois dos maiores massacres em presídios das histórias do país, no Ano-Novo de 2017 e em maio deste ano. Somados, os dois episódios resultaram em 122 presos assassinados.