PM confunde peça de madeira com fuzil e mata catador de recicláveis no Rio

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Policiais militares do Rio de Janeiro mataram a tiros um catador de recicláveis que carregava um pedaço de madeira que eles confundiram com um fuzil. O caso ocorreu na Cidade de Deus, zona oeste da cidade, na manhã desta quinta-feira (5).

A falha foi admitida em nota pela corporação. "Uma equipe se deslocava pela localidade do Pantanal, uma área historicamente conflagrada, quando se deparou com um homem conduzindo o que aparentava ser um fuzil, pendurado em uma bandoleira. Os policiais efetuaram disparos e o atingiram. O ferido não resistiu."

A vítima foi identificada como Dierson Ges da Silva, 50, morador da comunidade. A reportagem teve acesso a um relatório feito pelo 18º BPM (Jacarepaguá), unidade que participava da operação, no qual policiais escreveram que se sentiram ameaçados.

"A guarnição deparou-se com um suspeito saindo de um barraco com um simulacro (similar a fuzil) em uma alça (similar a uma bandoleira), em postura similar a uma conduta de patrulha, em direção aos policiais militares. A guarnição, sentindo-se ameaçada, efetuou DAFs (Disparos de Arma de Fogo) contra o suspeito, o qual veio a óbito", diz trecho do documento.

Os disparos teriam sido feitos pelo GAT (Grupo de Ações Táticas) da unidade. Após o crime, moradores cercaram os agentes e os chamaram de "assassinos". O clima é tenso no local e o comércio foi fechado.

O caso foi encaminhado para a Delegacia de Homicídios da Capital, que realizou perícia no local. Um policial civil ouvido pela reportagem, que não quis se identificar, afirmou que o objeto realmente é parecido com um fuzil, mas a falha policial é agravada pelo fato de o suspeito não ter apontado o objeto em direção aos agentes.

A PM afirmou que instaurou um procedimento apuratório para averiguar as circunstâncias da morte. Ainda segundo a corporação, a operação conta com o apoio do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e do BAC (Batalhão de Ações com Cães).

O objetivo da operação seria a prisão de criminosos que atuam no crime organizado daquela localidade e em roubos na região, além de apreender armas de fogo.

RELEMBRE OUTROS CASOS

Em 2010, Hélio Barreira Ribeiro, 47, morador do morro do Andaraí, na zona norte do Rio, foi morto pelo Bope quando a furadeira que ele segurava foi confundida com uma arma. No ano anterior, André Luís de Souza havia sido morto ao ter o guarda-chuva confundido com um fuzil.

Em 2015, os amigos Thiago Guimarães Dingo, 24, e Jorge Lucas Martins Paes, 17, morreram baleados na Pavuna, zona norte do Rio, após outro erro da Polícia Militar: ambos estavam em uma moto, e o macaco-hidráulico que um deles segurava foi confundido com uma arma. O autor dos disparos foi um sargento da PM.

Em 2018, Rodrigo Serrano, 26, foi morto a tiros durante operação da Polícia Militar na comunidade Chapéu-Mangueira, no Leme, zona sul do Rio, depois que seu guarda-chuva foi confundido com um fuzil pelos policiais.

Em 2019, o DJ João Victor Dias Braga, 22, foi morto a tiros durante ação na comunidade Santa Maria, zona oeste do Rio. Na ocasião, familiares relataram que ele carregava nas mãos uma furadeira, que teria sido confundida com uma arma pelos policiais.