PM de Minas abre ocorrência após receber denúncia sobre vacinação ilegal em BH

FERNANDA CANOFRE
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BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - A Polícia Militar de Minas Gerais registrou ocorrência após receber receber vídeos que mostram vacinação ilegal contra a Covid-19 numa garagem em Belo Horizonte. A imunização clandestina teria ocorrido na noite de terça-feira (23) no bairro Alto Caiçaras. O caso foi revelado pela revista piauí, e envolveria empresários e políticos. A Polícia Federal abriu inquérito para investigar o caso. Segundo a PM, a ocorrência foi aberta por volta das 19h50, e os policiais foram recebidos por dois seguranças que trabalham no local. Quando perguntaram se havia aglomeração ali, os seguranças informaram que houve uma reunião, mas que todos já haviam deixado o local. Nesse momento, ainda segundo o registro policial, uma pessoa acenou e disse que havia feito a denúncia, mas que não iria se identificar por temer represália. Ela contou que, junto a outras pessoas, filmou o episódio, identificando no pátio da empresa cerca de 25 veículos. Segundo a testemunha, condutores e passageiros estavam sendo vacinados por uma mulher de jaleco branco. Entre os vacinados, havia também crianças. Equipes da Guarda Municipal e da Vigilância Sanitária também estiveram no local, junto com a PM, mas nada foi constatado, segundo a ocorrência. A pessoa que fez a denúncia disse que encaminharia o vídeo à Secretaria Municipal de Saúde no dia seguinte. A Prefeitura de Belo Horizonte não retornou ao contato da reportagem para confirmar o recebimento. O portal R7 publicou um vídeo de menos de um minuto que mostra pessoas em uma garagem se aproximando de um carro, enquanto a mulher de jaleco, com o porta-malas do carro aberto, pega algo e aplica injeções. A reportagem da revista piauí diz que um grupo de empresários e políticos de Minas Gerais, a maioria deles ligados ao setor de transportes, recebeu a primeira das duas doses na terça-feira. O imunizante, comprado por iniciativa própria e sem repassar ao SUS, como previsto em lei, foi o da Pfizer, que já recebeu registro da definitivo da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mas ainda não está sendo aplicado no país, e teria custado R$ 600 por pessoa. Ainda segundo a revista, a vacinação foi improvisada em uma garagem da viação Saritur, e pessoas que foram vacinadas teriam apontado os irmãos Rômulo e Robson Lessa, identificados como donos da empresa, como os organizadores. A empresa nega que o caso tenha ocorrido em um local de sua propriedade e diz que os dois irmãos não fazem parte do corpo de sócios do grupo, que trabalha com transportes urbanos e rodoviários. Afirma ainda que o caso citado na reportagem é "de total desconhecimento da diretoria da empresa". No entanto, a reportagem esteve no local na tarde desta quarta-feira (25) e pôde ver funcionários com uniforme da Saritur circulando. Também há caminhões da transportadora Coordenadas, mas a Saritur afirma não ter ligação com a empresa. A Pfizer, por meio de nota, negou "qualquer venda ou distribuição da sua vacina contra a Covid-19" fora do âmbito do Programa Nacional de Imunização" e afirma que seu imunizante não está disponível em território brasileiro. O Ministério Público Federal em Minas Gerais instaurou nesta quarta-feira (24) um procedimento, chamado de notícia de fato, para apurar o caso. O ex-senador Clésio Andrade, citado na reportagem como um dos vacinados e que confirmou à revista ter recebido a vacina, disse em uma publicação nas redes sociais que não tomou o imunizante e que defende as regras do Ministério da Saúde. "Aliás, repito que eu preferia que os idosos, como eu, dessem a vez aos mais jovens, que são obrigados a sair de casa para trabalhar", afirma ele. À reportagem, por mensagens no WhatsApp, ele disse desconhecer o assunto e que está em quarentena no sul de Minas, porque foi infectado e teve Covid-19. O deputado estadual Alencar da Silveira Jr. (PDT), também citado na reportagem como mais um dos vacinados, negou o fato, assim como o fez à revista. Por meio da sua assessoria de imprensa, ele lembrou que é um dos signatários da CPI na Assembleia Legislativa de Minas Gerais que apura supostos casos de fura-fila da vacinação entre servidores da Secretaria Estadual de Saúde - o caso derrubou o secretário Carlos Eduardo Amaral, que foi imunizado. "Não vacinei e não tenho conhecimento dessas vacinações citadas na reportagem da piauí. Acho que tem que ser apurado", disse o deputado via assessoria. A reportagem diz ainda que a enfermeira que aplicou as doses no grupo teria chegado atrasada por estar atendendo em uma empresa pertencente à ArcelorMittal. A Belgo Mineira, segundo a ArcelorMittal, não existe mais. Por meio de nota, a ArcelorMittal diz que nunca adquiriu vacinas contra a Covid-19 e nunca contatou nenhuma farmacêutica para fazê-lo. A empresa também afirma desconhecer "qualquer atuação de seus profissionais em atos correlacionados à vacinação fora dos protocolos do Ministério da Saúde e do Programa Nacional de Imunização - PNI".