PMs alegam terem se sentido ameaçados para justificar disparos contra catador morto na Cidade de Deus

Policiais militares envolvidos na morte do catador Dierson Gomes da Silva, de 50 anos, baleado nesta quinta-feira, durante operação da Polícia Militar na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, prestaram depoimento na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). A vítima estava com um pedaço de madeira amarrado a uma alça, confundido pelos policiais com um fuzil, quando foi ferida. Lotados no 18ºBPM (Jacarepaguá), os policiais alegaram, ao prestar depoimento, que a guarnição se sentiu ameaçada ao se deparar com um "suspeito" saindo de um barraco com algo com alça, similar a um fuzil com bandoleira, em postura de conduta de patrulha, e que por isso fez os disparos.

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Os PMs tiveram as armas apreendidas. Em nota, a Secretaria de Polícia Militar admitiu que o homem "foi morto por estar conduzindo o que aparentava ser um fuzil, pendurado em uma bandoleira".

O comunicado diz ainda que "o comando da Corporação já instaurou um procedimento apuratório para averiguar as circunstâncias que vitimaram fatalmente um homem na comunidade".

A família do catador diz não ter dúvida de que ele foi morto pela PM ao ser confundido com um bandido.

— Meu irmão trabalhava com reciclagem. Era muito conhecido e querido na comunidade. Era uma pessoa do bem que passou a sofrer de depressão depois que perdeu a mulher com problemas de saúde. Meu irmão não era bandido. Foi morto por engano porque estava com uma madeira na mão que a polícia confundiu com arma. Nossa família está destruída. A gente quer justiça para o que aconteceu — disse Denise da Silva Ribeiro, de 49 , irmã do catador, para em seguida completar:

— Vou fazer aniversário ( dia12), mas isso acabou. Meu sobrinho também vai fazer aniversário ( dia 7), mas isso tudo acabou para nós. Nós oramos para ter um bom natal e um bom no ano novo, mas o que aconteceu com meu irmão acabou com a gente — disse, chorando.

Dierson foi morto ao sair da casa onde morava sozinho, na localidade conhecida como Pantanal. Ele deixa dois filhos maiores, um deles de 32 anos. Peritos da DHC fizeram uma perícia no ponto em que o catador foi baleado. O corpo da vítima foi levado para o Instituto Médico-Legal, no Centro do Rio. O resultado do exame cadavérico vai confirmar o número de tiros que atingiram o homem e se algum disparo foi feito pelas costas.

A operação deflagrada pela PM nesta quinta-feira, na Cidade de Deus, contou com policiais do Batalhão de Operações Especiais, do 18ºBPM, e do Batalhão de Ações com Cães (BAC). Houve tiroteio entre policiais e traficantes. Um fuzil e rádios de comunicação que estavam com dois homens foram apreendidos. À tarde, moradores fizeram um protesto na Cidade de Deus devido à morte de Dierson, mas o ato foi controlado e não trouxe maiores problemas para o trânsito. De qualquer forma, o policiamento foi reforçado no entorno da comunidade. Segundo a PM, durante a ação, barricadas foram retiradas com o auxílio de tratores. O objetivo da ação, segundo a polícia, era prender criminosos que também roubam na região, apreender armas de fogo e recuperar veículos roubados. Já na região da Praça do Adão, os cães do BAC encontraram um esconderijo com 25 tabletes de aproximadamente dois quilos de maconha, 405 pinos de cocaína e quatro carregadores de pistola.