PMs dão versões divergentes sobre mortes em Paraisópolis

ROGÉRIO PAGNAN E ARTUR RODRIGUES
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 02.12.2019: Movimentação no IML Central de São Paulo, local onde chegaram as vítimas de ação policial na comunidade de Paraisópolis. (Foto: Roberto Casimiro/Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 1841182

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Divergências no depoimento de policiais que participaram da operação na favela Paraisópolis (zona sul) que resultou em nove mortes e 12 feridos, trazem dúvidas sobre o verdadeiro estopim da confusão que levou ao pisoteamento das vítimas.

Documentos obtidos pela Folha, que trazem o depoimento de seis policiais que atuaram naquela noite, colocam em dúvida se a tragédia ocorreu em razão da suposta confusão provocada por disparos de criminosos, ou, em um segundo momento, por policiais militares que tentaram dispersar a multidão.

Integrantes da cúpula da PM admitem que ainda não é possível dizer com certeza o momento exato dos pisoteamentos e somente ao término das investigações, com ajuda de exames periciais, será possível saber com certeza a cronologia do caso.

O ponto central da versão sustentada até agora pelo governo paulista é que, na madrugada de domingo, policiais militares da Rocam (que usam motos) iniciaram uma perseguição a dois suspeitos ocupantes de uma moto de cor preta, modelo XT 660, nas proximidades da Paraisópolis.

Pelo relato, a perseguição teve início quando os criminosos, ao cruzarem com o comboio de PMs, começaram a realizar disparos de arma de fogo contra os PMs. O incidente terminou em uma rua onde ocorria um baile funk com mais de 5.000 pessoas.

A polícia relata que a tragédia ocorreu quando esses criminosos, ao entrarem com a moto na aglomeração, passaram a realizar disparos contra os policiais. Segundo eles, isso teria provocado pânico generalizado no público, correria e empurra-empurra, daí as quedas e o pisoteamento.

Ainda de acordo com essa versão, na sequência os policiais de motos teriam sido atacados por parte do público e precisaram ser resgatados por equipes da força tática, que tiveram de usar bombas de efeito moral e balas de borracha para sair da favela. O uso da força teria sido um movimento de defesa dos próprios policiais, conforme alegam.

Esse grupo tático, especializado em ações ostensivas, é o mesmo ao qual pertencia um policial assassinado há um mês na favela em ocorrência policial. Desde então, a PM intensificou operações, o também que provocou reclamações por parte de moradores.

Parte dos depoimentos dos policiais aponta que, após os frequentadores do baile funk começarem a atirar objetos contra os PMs de moto, estes conseguiram deixar a favela sem maior confronto. Nesses depoimentos, não há a citação da necessidade da força tática para resgatá-los.

Ainda por essa versão de parte dos PMs, já do lado de fora da favela eles afirmam ter relatado o ocorrido a um comandante, que repassou informações a outro comandante. Decidiram retornar à favela, onde se depararam com duas viaturas apedrejadas e danificadas. Nesse momento, segundo eles, "havia grande número de pessoas descontroladas" e houve o uso de cassetete e munição química para dispersar a multidão.

"Em seguida receberam a informação de que havia nove pessoas desacordadas em uma viela da rua Ernest Renan", disse o policial militar João Paulo Vecchi Alves Batista, que assina como o condutor da ocorrência (responsável pela versão oficial dos fatos).

No mesmo registro, há PMs que afirmam que o momento exato dos pisoteamentos se deu após tumulto provocado pelos disparos dos bandidos.

Há, porém, um PM ouvido na investigação que não chega nem a mencionar ter havido confusão após os disparos dos criminosos.

Ele cita os disparos e, na sequência, "que pessoas que estavam no pancadão passaram a atirar pedras e garrafas na direção das equipes policiais". Há, assim, uma outra versão.

Segundo moradores, os policiais fecharam ambos os lados da rua Ernest Renan. Ao disparar munição não letal e dar golpes de cassetete, teriam induzido a multidão a ir para duas vielas. Em uma delas aconteceu o pisoteamento.

Os moradores afirmam não ter visto nenhuma perseguição. Segundo a polícia, os suspeitos não foram presos nem tiveram a moto apreendida.

O porta-voz da PM, tenente-coronel Emerson Massera, disse que as investigações do caso estão em andamento.

"Para sabermos o momento exato que as mortes ocorreram vai depender da investigação, mas a hipótese principal é de que os fatos que levaram às mortes dessas pessoas se iniciaram com a confusão gerada pelos criminosos que entraram atirando na comunidade", disse.

Ainda de acordo com oficial, se houve uma tentativa de dispersão do público do pancadão por parte dos policiais, houve um erro de procedimento com a quebra das normas adotadas pela corporação. O tenente-coronel disse que será apurada a versão de que motos da Rocam saíram no local e depois retornaram.

Seis policiais envolvidos foram tirados da atividade de policiamento. Massera evita usar o termo afastamento porque "não há indícios de que cometeram algum crime, algum erro, por isso estão sendo preservados."

O ouvidor da Polícia, Benedito Mariano, disse que é necessária uma rigorosa investigação, porque não é aceitável ocorrer mortes em uma ação policial. "Não dá para uma perseguição de dois supostos suspeitos terminar em uma ação de controle de distúrbios, precipitada, sem planejamento, inadequada, quando a intervenção policial se dá quando o baile já em andamento."