PMs que executaram dois homens no Rio se envolveram em 16 autos de resistência

Vladimir Platonow - Repórter da Agência Brasil

Os policiais militares flagrados executando dois homens feridos, na tarde de quinta-feira (30), no bairro de Fazenda Botafogo, já haviam se envolvido em 16 casos de auto de resistência, como são chamadas as mortes de pessoas em confrontos com a polícia.

Os dados são do Ministério Público (MP), que convocou uma reunião de emergência nesta sexta-feira (31) para tratar do assunto. No encontro também foi discutida a morte da estudante Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, baleada dentro da escola Jornalista Daniel Piza, localizada na mesma região, durante o confronto entre bandidos e policiais.

A cena dos dois PMs atirando em dois homens que estavam feridos e caídos no chão foi divulgada por meio de um vídeo de celular gravado por moradores da região. Segundo o MP, o cabo Fabio de Barros Dias aparece em 11 casos de auto de resistência e o sargento David Gomes Centeno em mais cinco. De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), só nos meses de janeiro e fevereiro deste ano houve 182 episódios de mortes em confrontos com a polícia no estado do Rio.

“A ideia é nos reunirmos com outros segmentos, inclusive a Secretaria de Segurança e o Tribunal de Justiça, para traçarmos uma linha de segurança pública mais eficiente e evitarmos que fatos lamentáveis como os de ontem voltem a acontecer ou pelo menos diminuam. O Brasil tem se destacado negativamente como um dos países em que mais pessoas morrem, atingidas pela violência urbana. Nossa polícia é a que mais mata e a que mais morre”, disse o procurador-geral de Justiça, José Eduardo Gussem, lembrando que só neste ano morreram 42 policiais militares no Rio.

Segundo ele, a morte dos dois homens feridos e caídos na calçada tem todas as evidências de execução: “Há toda evidência naquele episódio, relatado pelas imagens, de uma execução sumária, lamentável”. O cabo Dias e o sargento Centeno estão presos no Batalhão Especial Prisional (BEP), em Niterói.

A promotora Andrea Amin, integrante do Grupo de Atuação Especial em Segurança Pública (Gaesp), já denunciou o cabo Fábio por execução em um caso de auto de resistência, mas a Justiça não acatou o pedido.

“De todos os policiais militares que eu denunciei, eu só tive duas denúncias rejeitadas. Uma foi essa do Fábio e outra foi ano passado. Coincidentemente, as duas na 3ª Vara Criminal. Recorri das duas. No resto, a gente tem conseguido o recebimento da denúncia, eu não sei se da condenação, pois isso fica a cargo do júri”, disse Andrea.