Pobreza extrema inviabiliza estabilidade no Haiti, país mais pobre do hemisfério Ocidental

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MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - Em 2004, o então presidente haitiano, Jean-Bertrand Aristide, deixou o país em meio a uma escalada de violência promovida por grupos de oposição armados. A crise levou à intervenção militar via missão da ONU (Minustah), liderada pelo Brasil. Dezessete anos depois, o país caribenho está mergulhado em uma nova crise política com contornos parecidos, agora agravada pelo assassinato do atual mandatário.

O fato de que Jovenel Möise tenha sido morto a tiros dentro da própria residência escancara o fracasso da ONU e do governo haitiano em fortalecer as instituições do país mais pobre do hemisfério Ocidental. A estruturação da Polícia Nacional Haitiana foi justamente uma das prioridades da Minustah (2004-2017) e da Minujusth (Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti), que durou até 2019.

Assim como nos últimos meses de Aristide, o governo Moïse havia perdido o controle de partes do território, incluindo regiões de Porto Príncipe. Em junho, ao menos 8.500 pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas na capital devido a disputas entre grupos armados, segundo a Unicef.

Acampadas, elas sofrem com fome, sede e condições sanitárias precárias. Em 30 de junho, a líder opositora Antoinette Duclair foi morta a tiros dentro do seu carro. No mesmo dia, o jornalista Diego Charles também foi assassinado. Quando as últimas tropas brasileiras deixaram a ilha, no final de 2017, o antropólogo brasileiro Pedro Braum advertiu que qualquer melhoria institucional deixada pela Minustah seria frágil por causa da pobreza extrema. "É uma população gigantesca sem acesso a direito social nenhum. Sem resolver isso, é difícil criar uma sociedade política estável", afirmou.

De lá para cá, as condições de vida só pioraram. Braum, que frequenta o Haiti desde 2008 e morou em Porto Príncipe entre 2014 e 2020, afirma que o atual ciclo de violência e crise política começou em julho de 2018, quando Moïse enfrentou violentos protestos após aumentar o preço dos combustíveis em até 51%, resultado de um acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

A partir daí, o Haiti está em um espiral. Escolas deixaram de funcionar por meses devido a vias bloqueadas e à violência. Os sequestros-relâmpago e outros crimes se proliferaram na capital. A principal estrada, de Porto Príncipe até a fronteira com a República Dominicana, está controlada por uma gangue.

No plano político, o Haiti não tem um Poder Legislativo desde o início de 2020, após o cancelamento das eleições, meses antes, e Moïse vinha governando por decreto. Opositores lideraram grandes marchas contra movimentos autoritários do presidente haitiano, que tentava sancionar uma nova Constituição redigida apenas por aliados. E grupos armados voltaram a pregar a tomada do poder pelas armas.

A Covid também teve imenso impacto econômico. Sem trabalho, haitianos no exterior deixaram de enviar dólares aos parentes que ficaram para trás, reduzindo uma das principais fontes de divisas do país. O país também sofre com problemas ambientais crônicos. Ao menos 6% do território foi perdido para processos erosivos, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). Além disso, a sobrepesca no litoral deixou o país sem uma de suas principais fontes de alimento.

Ex-coordenador do Viva Rio no Haiti, Braum conta que as décadas de instabilidade provocaram uma fuga de cérebros --quase todos os profissionais com quem trabalhou no país hoje moram nos EUA, no Canadá ou na França. "Uma energia que poderia ser usada para reconstruir o país está indo para outros lugares."

Para os que ficam, a crise sem fim gera um grande trauma social. Uma das expressões mais recorrentes do país é "peyi nou tét anba": nosso país está de cabeça para baixo. As pessoas se sentem incapazes de materializar desejos, formular projetos e desistem de ter um papel político por medo da violência, diz ele.

"Todo mundo imaginava que algo trágico aconteceria. É um filme que se repete com situações novas", afirma o antropólogo. "Fica difícil criar estabilidade política quando a vida das pessoas é muito frágil."

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