Pobreza, a face oculta do sucesso econômico israelense

Por Guillaume LAVALLÉE
Mulher se serve no centro Lasova, em Tel Aviv, em 8 de setembro de 2019

Com a taxa de desemprego mais baixa da região do Mediterrâneo, Israel pode dar dar a impressão de ter alcançado um "milagre econômico". Contudo, em algumas cidades e bairros de Tel Aviv a pobreza causa estragos.

São 10h30 no centro Lasova (saciado, em hebreu) de Tel Aviv. Aposentados começam a chegar, tiram um shekel do bolso e se sentam à mesa. O menu: massa, sopa, salada, pão, um pouco de frango e um copo de suco.

Ventiladores refrescam esta antiga sinagoga. Mazal, uma mulher ruiva de óculos de plástico e cheia de anéis nos dedos, entra ali e fala de sua vida, da pobreza e de um namorado em Londres que escreve mensagens em inglês e ela traduz para o hebraico com a ajuda do tradutor da Google.

A cada mês, Mazal recebe uma aposentadoria de 2.600 shekel (740 dólares). Ela também faz horas de faxina que lhe rendem 2.200 shekels (620 dólares) adicionais. "Mas não chega! Tenho que pagar o apartamento, a eletricidade, o telefone e todo o resto", lamenta. Alugar uma quitinete em Tel Aviv custa pelo menos 4.000 shekels (1.100 dólares).

Mazal tem 66 anos e é divorciada, mãe de duas mulheres e avó. Há alguns anos, ficou sem residência fixa. O governo lhe garante uma moradia social, mas várias vezes por mês ela vai a Lasova para fugir da solidão e para comer alguma coisa.

"Tenho que ajudar meu irmão, que tem câncer, e minhas filhas. Não é possível viver assim. Gostaria de comprar roupas, sair", afirma.

- Os 'invisíveis' -

Diariamente, são servidos centenas de pratos no Lasova, sobretudo para aposentados, imigrantes africanos, desempregados, trabalhadores com salários baixos e pessoas sem domicílio fixo.

"Aqui você encontra os invisíveis de Israel", afirma a gerente do centro, Ravit Reichman.

Ao lado do centro, ficam dos prédios altos e, ao longe, se veem arranha-céus.

A inovação industrial impulsionou a economia há 15 anos em termos de crescimento e emprego. Em julho, a taxa de desemprego voltou a cair, chegando a 3,7%, e o salário médio avançou a 11.175 shekels líquidos por mês (3.100 dólares).

De acordo com a Agência Nacional de Previdência Social, dos 9 milhões de habitantes do país, quase 1,8 milhão vive abaixo da linha de pobreza. A OCDE também alerta para a desigualdade social no país.

"É paradoxal, porque estamos vivendo os 15 anos da idade de ouro econômica de Israel, a renda por habitante quase duplicou e superou a de alguns países europeus", explica Gilles Darmon, diretor da ONG Latet.

- 'Trabalhadores pobres' -

A pobreza afeta principalmente os árabes e judeus ultraortodoxos - dois grupos com elevado crescimento demográfico, embora esse não seja o único fator.

Entre os árabes, muitas mulheres são donas de casa para cuidar dos filhos. No segundo grupo, os homens trabalham pouco para se dedicar ao estudo do Talmud, afirma John Gal, coautor de um relatório sobre a pobreza em Israel para o centro de pesquisa Taub.

"A partir do momento em que tem dois ou três filhos, a situação se torna problemática. Embora a sanidade, a educação e o transporte são menos caros que em outras economias desenvolvidas, o custo de vida é muito alto", explica.

Em 2011, dezenas de milhares de israelenses foram às ruas para denunciar a condição de moradia. Apesar disso, este tema está ausente dos discursos das campanhas para as eleições de 17 de setembro. Fala-se mais de segurança, da relação entre Estado e religião e da popularidade dos líderes políticos.

O número de "trabalhadores pobres" no país aumenta, alerta a OCDE.

Após comer em Lasova, Alexander, trabalhador temporário de 45 anos, volta às ruas de estômago cheio, com um shekel a menos. "Sobraram quatro shekels. É muito duro", afirma o homem.

"Depois que pago o aluguel, não sobra nada. E acontece o mesmo com meus amigos que ganham 4.000 ou 5.000 shekels por mês", lamenta.