Podcast 'Querino' revê História do Brasil com olhar afrocentrado

Manuel Querino (1851 e 1923) foi um dos primeiros estudiosos a se debruçar sobre a cultura africana no Brasil. Autor de ensaios e artigos acerca das artes e dos costumes oriundos da presença afro-diaspórica na Bahia, o intelectual se notabilizou por reconhecer (positivamente, algo inédito até então) a contribuição dos povos africanos e afrodescendentes na formação do país. O nome do pensador abolicionista batiza, não à toa, o novo projeto do jornalista Tiago Rogero.

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“Querino”, podcast que estreia sábado — com oito episódios produzidos pela Rádio Novelo em parceria com o Instituto Ibirapitanga —, faz uma espécie de revisão histórico-cultural de diferentes aspectos da nação sob um olhar “afro-centrado”.

— Manuel Querino foi a primeira pessoa a colocar o índio, o africano e o afrodescendente na história brasileira. Antes dele e, na verdade, até hoje, apesar dos valorosos esforços de tantos que vieram depois, o negro era tratado como se a sua única contribuição fosse como o escravizado no trabalho, um subserviente sem capacidades intelectuais. A gente mostra que não é isso — diz Rogero, que esteve à frente dos podcasts “Negra Voz”, produzido pelo GLOBO, em 2019, e laureado com o Prêmio Valdmir Herzog, e “Vidas Negras”, lançado em 2020, em parceria do Spotify com a Novelo .

Ancorado em pesquisas iniciadas em 2020 sob consultoria da historiadora Ynaê Lopes dos Santos, o podcast foge do “enciclopedismo” ao resgatar detalhes pouco conhecidos de passagens determinantes na trajetória do país (os episódios tratam dos seguintes temas: independência, riqueza, música, educação, trabalho doméstico, religiosidades, saúde e abolição e democracia).

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Nos instantes iniciais do capítulo que abre o podcast — que deve se desdobrar em livro, projeto educacional e produção audiovisual —, ficamos sabendo, por exeplo, que a residência oficial das famílias real e imperial por oito décadas, o Palácio de São Cristóvão (que depois se tornaria o Museu Nacional), na Quinta da Boa Vista, foi doado a Dom Joao VI por Elias Antônio Lopes, um dos maiores comerciantes de pessoas escravizadas no Brasil. E que não houve qualquer constrangimento ao aceitar o imóvel, erguido com dinheiro do tráfico negreiro.

— Não haveria o Brasil que a gente conhece hoje nem a experiência da colônia portuguesa se não fosse a escravização dos africanos — afirma Rogero, que se inspirou em “1619 Project”, lançado em 2019 pelo New York Times.

O trabalho documental americano reflete sobre a persistência do racismo na América do Norte e busca reposicionar a data de fundação dos Estados Unidos para o ano em que aportaram os primeiros navios com africanos escravizados em território americano. Para o autor de “Querino”, é fundamental rever o papel da escravidão em nossa história.

— No Brasil, foi também a escravidão que viabilizou e fundou o país. Procuramos apontar a responsabilização de quem escravizou para expor que, de muitas formas, houve pessoas que se beneficiaram e se beneficiam até hoje com essas escolhas.

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