Podcast tenta explicar o peso que sanções do Ocidente podem ter na Rússia

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin, durante reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin, durante reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - É difícil imaginar que Vladimir Putin se ajoelhe diante das potências ocidentais e peça o fim das sanções econômicas contra a Rússia em troca de um cessar-fogo definitivo na Ucrânia. Não é o estilo do personagem, que aliás não recuou em 2014, quando sanções parecidas tentaram dissuadi-lo de anexar a península ucraniana da Crimeia.

Se é assim, de que servem as sanções? É uma boa pergunta, recentemente colocada a três especialistas convidados, em Londres, para uma minissérie de podcasts do Royal Institute of International Affairs (instituto real para assuntos internacionais), mais conhecido como Chatham House.

Não é por aqui uma instituição tão reverenciada, mas, só para constar, em 2017 a Universidade da Pensilvânia (EUA) a colocou no segundo lugar mundial de credibilidade acadêmica, atrás da Brookings Institution, think tank com sede em Washington.

Mas voltemos às sanções. O que os estudiosos da Chatham House afirmam em "War in Ukraine: Can the sanctions make a difference?" (guerra da Ucrânia: as sanções podem fazer diferença?) é que elas impedem que a Rússia tenha o dinheiro necessário para praticar todas as maldades bélicas que Putin tem na cabeça. Mas não é por falta de recursos que ele deixará, em menor escala, de cometer essas maldades.

As punições permitem outras reflexões. Quem as impõe se considera infantilmente poderoso, como se deu com o americano Joe Biden ao afirmar que a Rússia não receberia mais um dólar, mais um iene ou mais um euro. Balela.

Não é simples assim. O podcast entrevista um consumidor russo de alto padrão, que diz encontrar hoje os mesmos bens que nos tempos da abundância, mas a um preço bem maior e com menor frequência. "Não é devastador, mas as pessoas estão nervosas e sem esperanças", afirma o personagem anônimo.

O economista Creon Butler, um dos debatedores, exemplifica de maneira mais dramática esse raciocínio. Em razão do embargo, o PIB deste ano diminuirá de 10% a 15%. As sanções bloqueiam transações comerciais, congelam reservas no Banco Central e estimulam apoio militar à Ucrânia. Com elas, a longo prazo serão pequenas as exceções como a da Índia, que comercializa normalmente com a Rússia para compensar suas importações de armas.

A americana Christine McDaniel, pesquisadora-sênior do Centro Mercatus, diz que as sanções, para serem efetivas, precisam modificar o comportamento do Estado que as sofre. Ora, isso não tem ocorrido com nenhum país importante no último meio século. O Irã, apesar delas, não desistiu de seu programa nuclear. A África do Sul prosseguiu com o apartheid, apesar de punida internacionalmente por segregar a população negra. O modelo pode eventualmente funcionar em países pequenos e pouco poderosos, o que não é o caso da Rússia.

Um terceiro e último debatedor, o especialista em política russa Bill Browder, diz que o ideal seria que as sanções do Ocidente quebrassem a espinha militar de Putin, levando-o a se render aos ucranianos. Mas esse cenário é fantasioso.

O Kremlin não pode hoje contar com US$ 24 bilhões em reservas cambiais, porque 69% dessa quantia foi congelada. A guerra está custando à Rússia até US$ 1 bilhão por dia, segundo algumas projeções, e nada indica que esse custo possa cair.

Browder diz ainda que por enquanto Moscou não foi levada a sério ao tentar responder às sanções com a ameaça de uso de armas nucleares. É muita desmoralização, embora o país ainda disponha de reservas em ouro e mantenha seu antigo nível de comércio com a China.

O curioso é que nenhum dos debatedores discorreu sobre os efeitos ideológicos relevantes para os governos que adotam as sanções. Eles precisam acreditar que estão destruindo a economia do país beligerante, quando, em verdade, em lugar de uma sangria fatal, provocam algo apenas mais profundo que arranhões.

É bem verdade que tal linha de raciocínio cairia no politicamente incorreto e tiraria do Ocidente uma causa --a defesa moral e incondicional da Ucrânia-- que ele não encontra em seu arsenal retórico desde os bons tempos da Guerra Fria.

Resta então a torcida por efeitos difíceis de acontecer. Que as sanções quebrem com toda a gravidade imaginável os planos de prosperidade que possam ter existido na Rússia. Que os oligarcas peçam o penico diante de uma generalizada bancarrota. E que Putin seja deposto e exilado na Sibéria.

Mas, enquanto nada disso acontece, reflexões como as estimuladas pela Chatham House são as mais realistas e instigantes.

WAR IN UKRAINE: CAN THE SANCTIONS MAKE A DIFFERENCE?

Onde: Episódio de minissérie de podcasts da Chatham House (disponível em chathamhouse.org)

Duração: 26 min. (em inglês)

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