Poder de compra, tema da eleição na França, opõe propostas de Macron e Le Pen

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em uma eleição realizada em meio a uma relativa melhora da pandemia e aos reflexos diretos que a Guerra da Ucrânia provoca na Europa, a França irá às urnas no dia 24 preocupada mesmo com o bolso.

No domingo passado (10), levantamento do instituto Ipsos feito logo após o primeiro turno reforçou números que vinham sendo martelados na campanha: o poder de compra foi o tema mais importante na hora de definir o voto para 58% dos eleitores, à frente de imigração e saúde, relevantes para 27% e 26%.

Pela pesquisa do Ifop, o assunto teve papel central para 68% dos votantes, e só a saúde registrou mais menções (71%) --nos dois casos, cada pessoa podia indicar mais de uma preocupação.

A análise na segmentação desses dados ajuda a entender por que passaram à segunda rodada Emmanuel Macron e Marine Le Pen e como se dará a estratégia deles para vencer o pleito.

Os eleitores da ultradireitista se mostram mais preocupados com o poder de compra do que os do atual presidente, de centro-direita. Pelo Ipsos, o tema foi determinante para 54% dos que votaram em Macron, taxa que sobe para 69% entre eleitores de Le Pen. No Ifop, as cifras foram de 55% e 80%, respectivamente.

Jean-Yves Camus, analista político e pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas da França, avalia que a candidata da Reunião Nacional soube fazer uma leitura do momento e, desde o início, voltou sua campanha para propostas ligadas ao tema.

O momento é de alta na inflação --4,5% em março, bem acima do 1,1% registrado no mesmo mês do ano passado--, o que compromete a forte recuperação do PIB em 2021, alta de 7%, e o ligeiro aumento no poder de compra, de 1,9%, segundo o instituto de estatística francês (Insee).

Assim, Le Pen deixou de lado o discurso contra a imigração, que a marcou em 2017. "O programa nessa área é o mesmo de cinco anos atrás, os franceses conhecem de cor a posição de seu partido", diz Camus. "E ela deixou para Éric Zemmour dizer o que era mais radical, podendo se passar por moderada."

O analista ainda ressalta que a ultradireitista teve a "intuição de saber que os franceses se interessam principalmente por aquilo que têm na carteira" --e vendeu propostas que atuam diretamente sobre ela.

Uma delas é eliminar a taxa anual paga pelos franceses para a TV pública, de 138 euros (R$ 700), algo que também consta no plano de Macron. Outro tema em comum é combater a alta no preço da energia, que puxou a inflação em março, com aumento de 28,9%. Le Pen promete diminuir o TVA --imposto similar ao ICMS brasileiro-- de 20% para 5,5%, e o atual presidente propõe manter até o fim de 2022 o congelamento dos preços do gás e da eletricidade e a redução no dos combustíveis, medidas já em vigor.

Em outra frente econômica, Macron propõe levar adiante seu projeto de reforma da Previdência, passando a idade mínima de aposentadoria de 62 para 65 anos, como havia prometido em 2017. Já a rival quer baixá-la para 60 anos em certas categorias. O presidente ainda pretende triplicar o teto de um bônus isento de impostos pago a funcionários pelas empresas, fazendo com que o benefício possa chegar a 6.000 euros (R$ 30,5 mil). Autônomos que ganham salário mínimo (1.540 euros, ou R$ 7.800) teriam uma redução na carga de impostos que poderia chegar a 550 euros (R$ 2.800) ao ano.

Le Pen, por sua vez, traz propostas mais ousadas, como uma linha de empréstimo de 100 mil euros (R$ 508 mil) com taxa zero para casais que queiram comprar um imóvel, com o restante da dívida quitado caso tenham um terceiro filho. Além de um programa de transferência de renda para famílias, de 150 a 200 euros (R$ 760 a R$ 1.000), e outro para zerar o imposto de renda para quem tem menos de 30 anos.

Ousadia, como se sabe, tem seu preço. A campanha estima custo de 13,3 bilhões de euros (R$ 67,6 bi) para o programa, mas o think tank Institut Montaigne o calcula em 101,8 bilhões de euros (R$ 517,5 bi), sendo 22,9 bilhões (R$ 116,4 bi) apenas para as propostas sobre o poder de compra.

Tudo isso colocaria peso ainda maior sobre as finanças públicas em um país cuja dívida pública já equivale a 112,9% do PIB, segundo o Insee. "Le Pen aposta fortemente em medidas apoiadas pelo Estado, enquanto Macron faz propostas que ajudam mais as empresas a remunerar melhor os funcionários", diz Lisa Thomas-Darbois, analista de economia e finanças públicas do Montaigne.

Nesse sentido, o programa do atual presidente seria mais bem financiado. Ainda assim, suas propostas teriam um custo de 44,5 bilhões de euros (R$ 226,2 bi), dos quais 9,2 bilhões (R$ 46,8 bi) para medidas de poder de compra --número também acima do estimado pela campanha, de 6 bilhões de euros (R$ 30,5 bi).

As diferenças, segundo Thomas-Darbois, estão ligadas a questões como não levar em conta o custo de implantação e considerar efeitos positivos que, para o instituto, são incertos ou não mensuráveis.

Além da sustentabilidade financeira, a analista aponta outro problema no programa de Le Pen. "Certas medidas, como exonerar do imposto de renda jovens com menos de 30 anos, não são aplicáveis hoje, exigiriam mudança na Constituição", diz. "Não são economicamente viáveis nem legalmente possíveis."

Camus ressalta ainda que Macron busca, em seu programa, mostrar o impacto econômico daquilo que o opõe à rival em outros campos. "O presidente está fazendo uma campanha explicando que é o candidato do progresso, da abertura, da Europa, alguém que continuará com reformas e estará à altura das questões internacionais", afirma, evocando o que inspirou a chamada frente republicana em 2017.

"Ele explica que, com Le Pen, teríamos dificuldades de sermos ouvidos no mundo, em particular na Europa, e esse trabalho catastrófico seria extremamente sério na economia."

O analista, porém, destaca a mudança de postura da ultradireitista após a Guerra da Ucrânia. De próxima a Vladimir Putin, ela passou a designar a Rússia como agressora e a defender a acolhida de refugiados ucranianos. Segundo Camus, o objetivo da candidata não é sair da União Europeia, mas tentar reformar o bloco a partir de dentro --o que ele não vê como possível.

A tática também foi adotada por Zemmour, que obteve 7% dos votos. Ainda que suas propostas econômicas fossem mais liberais, a sintonia ideológica entre os dois deve levar a maior parte de seus eleitores a endossar Le Pen agora.

As pesquisas apontam que a ultradireitista deve contar ainda com o apoio de 18% dos eleitores do ultraesquerdista Jean-Luc Mélenchon (terceiro colocado, com 21,7%), em um movimento à primeira vista peculiar. "São pessoas que votaram nele não necessariamente devido ao seu programa, mas como um protesto, e estão prontos a arriscar elegê-la para se livrar do chefe de Estado", avalia Camus.

AS PROPOSTAS DE MACRON E LE PEN

Poder de compra

Macron

Manter congelamento do preço do gás e da eletricidade e o desconto de 0,18 euro nos combustíveis;

Extinguir a taxa de audiovisual de 138 euros por ano;

Triplicar o teto do benefício de poder de compra, passando de 2.000 euros para 6.000 euros.

Le Pen

Reduzir a TVA (imposto similar ao ICMS) dos combustíveis, da eletricidade e do gás de 20% para 5,5%;

Extinguir a taxa de audiovisual de 138 euros por ano;

Exonerar do imposto de renda os jovens com menos de 30 anos;

Imigração

Macron Expulsar estrangeiros que perturbem a ordem pública

Le Pen Criar lei visando apenas as ideologias islâmicas, "a verdadeira ameaça totalitária dos tempos modernos"

Saúde

Macron Contratar 50 mil enfermeiros e cuidadores para os lares de idosos até 2027

Le Pen Acabar com as agências regionais de saúde

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