Poesia feminina se reafirma como antídoto na pandemia e avança no ambiente on-line

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Versos que instigam, acendem, impulsionam, despertam sensações esquecidas. Palavras femininas ao vento, ou melhor, impressas ou registradas em telas por meio de postagens, fotos, recitais on-line e lives. A pandemia empurra o olhar para dentro, e desse mergulho brotam poemas que são lidos, ouvidos, digeridos, musicados, tatuados e compartilhados. Resultado: a formação de uma rede de mulheres em torno da poesia, na qual nomes da cena literária dividem espaço com escritoras eternas, e artistas reverberam ainda mais a obra de todas elas.

Bióloga, professora e poeta, Jade Prata, de 35 anos, acredita que o gênero cresce e aparece ainda mais em momentos como este, em que há uma direção introspectiva. “Quando as pessoas se voltam para si mesmas, conseguem colocar para fora os sentimentos por meio de palavras”, analisa a carioca, que define escrever como uma “necessidade”. Outro motivo desse boom, segundo Jade, é o fato de “os canalhas odiarem poesia”. “Estamos produzindo também para incomodá-los.”

Com um livro de poemas publicado, “Do verso ao ventre” (OrganoGrama), Jade se prepara para ver sua obra ganhar asas com o lançamento do projeto musical Espamo, no dia 13 de julho. “Minhas poesias se transformaram em oito músicas. O disco foi gravado no final de 2019 e chega agora ao mundo”, conta.

Para divulgá-lo nas redes sociais, Jade fez das letras uma espécie de tatuagem. “Foi uma produção bem caseira, a fotógrafa sugeriu, meu companheiro escreveu na minha pele e fotografamos no quintal de casa. A poesia ganhou corpo.”

Christina Autran, de 74 anos, acaba de publicar seu terceiro livro do gênero, “Pelos poros” (7 Letras). “Há muito tempo descobri ser essa a minha forma de expressão”, frisa a embaixatriz. Porém, desta vez foi diferente. No lugar da tradicional noite de autógrafos numa livraria, o lançamento ocupou o ambiente digital. “Foi uma experiência interessante, aconteceu uma interação maior”, observa a autora. Para impulsionar a divulgação, Christina teve o auxílio luxuoso do escritor e filósofo Francisco Bosco e da atriz Mariana Ximenes, que gravaram vídeos recitando seus poemas. “Ficaram o máximo. Isso atrai o olhar de quem passa pela página”, analisa.

Seus versos, ela conta, refletem sobre o balanço infinito das horas. “São focados na passagem do tempo. Nossa noção dele sofreu uma mudança neste período, o que também explica o interesse direcionado à a poesia.”

Para a poeta e publicitária Claudia Schroeder, de 48 anos, está acontecendo “uma gestação literária”. “Percebo um movimento uterino, as mulheres se unindo em torno da palavra”, analisa a gaúcha, que lançou em maio o livro “As partes nuas” (Francisco Alves). Para ela, a pandemia, além de trazer à tona o sentido de urgência de realizar projetos, também criou a necessidade de propagar a esperança. “Durante esse tempo, vimos a saída do armário de inúmeras pessoas com discurso de ódio. Qual é a minha bandeira? É espalhar poesia”, ressalta. Na divulgação do livro, ela contou com a declamação on-line das atrizes Lilia Cabral e Ilana Kaplan e do jornalista Pedro Bial. “Ajudou a espalhar”, afirma.

Disseminar poesia também é o que a atriz e apresentadora Cissa Guimarães, de 64 anos, tem feito desde abril, no perfil do seu Instagram, para um milhão de seguidores. Iniciou postando “dicas de leitura na pandemia” e, na sequência, passou a gravar vídeos recitando poemas de autores consagrados. A obra de Clarice Lispector é constantemente reverenciada. “Encontro na poesia alento para tanta dureza. Tem sido um remédio, é onde a gente encontra oxigênio para sobreviver”, analisa. “Adoro recitar. Resolvi compartilhar um vídeo por semana. Só a arte e a vacina salvam.”

Com o segundo livro recém-lançado — “Plou” (7 Letras) — , Maria Vasco, de 76 anos, destaca a abrangência do gênero. “Cabem todas as emoções. Fora isso, as pessoas estão precisando de mensagens mais contundentes”, analisa.

Atriz, poeta e cantora, Elisa Lucinda, de 63 anos, diz “navegar nos versos desde sempre”. Antes da pandemia, dava aula de poesia falada na Casa Poema, ao lado de Geovana Pires, para apenas uma turma presencial por absoluta falta de tempo. “A partir da quarentena, passamos para o ambiente on-line e os dez alunos se multiplicaram e viraram cem. Pessoas de todas as partes do Brasil e também do mundo”, conta. Para Elisa, a poesia nutre de maneira única. “Você chora mesmo sem compreender”, observa. “Produzi muito na pandemia, tenho dois livros prontos. A escrita é uma espécie de defesa diante das múltiplas porradas, é o pão da alma e, olha que maravilha, não engorda”, brinca.

Alexandra Maia, de 48 anos, é atriz, poeta e produtora de cinema. Poucos meses antes de o mundo ser invadido pelo coronavírus, lançou o livro “Um objeto cortante” (Numa). Em vez de desanimar, reagiu. “Decidi fazer lives chamadas Poesia Livre. Criei um formato em que converso com poetas contemporâneos e, como sou amiga de muitos atores, conto com a participação de alguns deles”, relata.

Já passaram por lá Mariana Lima, Camila Pitanga e Ingrid Guimarães, entre outros nomes. As lives, que duram uma hora, acontecem toda quarta-feira no perfil @alexandramaia. “É uma troca muito especial. Venho conquistando pessoas por meio da rede social. A poesia tem o condão de chegar rápido ao coração.”

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