Polêmica por monumento às vítimas da ilha norueguesa de Utøya

Pierre-Henry DESHAYES
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Terje Lien, o vizinho mais próximo a Utoyakaia, Noruega, mostra a construção do memorial às vítimas assassinadas pelo neonazista Breivik

Ele ajudou os jovens aterrorizados da ilha de Utøya na Noruega que pularam na água para escapar das balas de um assassino fanático. Dez anos depois, Terje Lien está furioso. Os agradecimentos? Uma medalha... e "um cemitério" sob sua janela.

Com medo de tornarem-se reféns de um trauma constante, o septuagenário e um punhado de vizinhos lutam contra o local escolhido na Noruega para construir um monumento em memória das 77 vítimas assassinadas pelo neonazista Anders Behring Breivik.

Em um país que deseja cicatrizar as polêmicas por este caso doloroso, o pequeno grupo de vizinhos, longe de ser a maioria, são às vezes acusados de egoísmo.

Dotado de 77 colunas, o monumento em memória das vítimas, que está em construção, será erguido na orla em frente à ilha de Utøya, onde 69 pessoas morreram em 22 de julho de 2011, em sua maioria adolescentes que participavam de um acampamento da Juventude trabalhista.

Antes, o neonazista matou outras oito pessoas ao detonar uma bomba perto da sede do governo em Oslo.

Denominado Utøyakaia, o "pier de Utøya", onde se pega o barco para chegar à ilha localizada a 600 metros, existe há quatro gerações.

"Estão nos impondo um monumento que parece um cemitério: 77 colunas de bronze de três metros de altura serão erguidas a 75 metros de nossas casas", disse Terje Lien.

- Transtornos psicológicos -

O aposentado de 75 anos guarda uma memória viva dessa trágica tarde de uma sexta-feira nublada, dia do seu aniversário.

As explosões que a princípio pensou ser "fogos de artifício". A fumaça. As pessoas se jogando na água no que ele pensou ser "um concurso de natação". Depois, seu neto que chega até ele e diz: "estão atirando em Utøya".

O barco familiar no qual ambos embarcaram. Os 28 jovens que resgatam das águas geladas enquanto o massacre continua acontecendo ali perto. O policial que levam para a ilha.

"Quando chegamos, havia corpos na praia, corpos sobre a areia. Muitos feridos ensanguentados", lembra Terje Lien.

Por esses atos de coragem, que também foram realizados por outros vizinhos, receberam uma medalha e um aperto de mãos do rei Harald, mas ficou um gosto amargo.

"Queremos seguir em frente", diz. "Mas quando olharmos nessa direção, as lembranças vão voltar", acrescenta, com o dedo apontado para Utøyakaia, onde as máquinas de construção trabalham.

Dezesseis vizinhos pediram à justiça do Estado e à Juventude trabalhista para que o monumento seja transferido, e o processo está em andamento na Noruega.

Os que pedem por isso temem um "trauma" permanente, com base em um estudo de especialistas que fala do risco de transtornos psicológicos por causa do monumento.

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