Polícia busca infratores de medidas contra a covid em periferias da Venezuela

Patrick FORT
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“Repitam: 'devo usar máscara!'”, ordena um policial a um grupo de adolescentes de um bairro da periferia de Caracas.

Os meninos obedecem com desânimo. “Mais alto, não consigo ouvir vocês!” Insiste o oficial. Eles repetiram uma, duas, três ... 10 vezes antes que o agente os liberassem.

A operação de segurança foi realzada em bairros populares de Los Teques, no estado de Miranda.

Os agentes tentam "quebrar a cadeia de infecções" em meio a uma alarmante segunda onda de covid-19 na Venezuela, explica Carlos Andrade, chefe da segurança municipal.

Nesta região, há restrição de mobilidade a partir das 18h, fechamento das lojas às 16h, uso obrigatório de máscara e encontros com mais de cinco pessoas devem ser evitados.

Cerca de 50 agentes, alguns armados, vão de motocicleta até o bairro El Nacional, perigoso como quase todos na Venezuela, país com altíssimos índices de violência.

“São 6 da tarde, eles têm que ir”, ordena Andrade a um grupo de mototaxistas e a outro lojista que fecha com relutância.

Depois de um ponto, é preciso continuar a pé. Os policiais entram nas vielas, saturadas de humildes casas de tijolos, escadarias e corredores estreitos. A noite começa a cair.

“Mãos ao alto! Contra a parede”, grita Marco Rodríguez, um dos policiais da operação, aos jovens sem máscara. Acostumados com as operações, eles obedecem com calma. Após uma busca rápida, o refrão começa: 'devo usar a máscara'".

Outros moradores recebiam a mesma ordem em uma tentativa policial de fazer cumprir a medida decretada pela Presidência.

A jornada continua e os agentes pedem que as pessoas voltem para casa, batem nas portas onde ouvem música para verificar se não há aglomeração. "Não são festas", diz um.

Com cerca de 30 milhões de habitantes, a Venezuela registra quase 150.000 infecções e 1.500 mortes por coronavírus, números questionados por organizações não governamentais que relatam uma alta subnotificação.

As autoridades alertaram para uma segunda onda "mais virulenta", que coincide com a chegada de uma variante brasileira, e impõem novas restrições, embora principalmente nas áreas populares e rurais, a multidão tende a ser a regra e o uso de máscaras, muitas vezes, a exceção.

- "É para o bem de todos" -

Depois de El Nacional, a próxima parada é Guaremal, o maior bairro da região. “Era um bairro onde não era possível abrir galpões, não entrava transporte público. Conseguimos erradicar o crime”, celebra Andrade. "Não temos grupos estruturados."

O agente acompanha uma criança até a casa dos pais e então se depara com um culto evangélico que reúne cerca de 40 pessoas. A abordagem aqui é mais diplomática.

“Eu o respeito, mas eles têm que usar a máscara. É para a saúde deles e dos outros”, disse à congregação.

"Senhorita", aponta para uma dos presentes, "não tem máscara? Por favor, saia, é para o bem de todos", pede.

“Estamos aqui pela segurança da comunidade”, insiste.

Um tanto constrangido, o pastor pega o microfone para agradecer ao policial com um "Deus o abençoe".

"Amém", ele responde enquanto sai.

As motocicletas seguem viagem até Brisas de Oriente, outro bairro próximo.

Em uma parede se lê "Chávez, juro, meu voto é em Maduro" da campanha que levou o presidente Nicolás Maduro ao poder após a morte de Hugo Chávez em 2013.

O roteiro se repete: fechamentos de lojas, pedidos por máscaras, buscas de segurança.

“Nos bairros nem sempre se presta atenção ao que diz o governo”, reconhece com eufemismo o agente Pedro Zerpa, que garante que a polícia vai voltar se as lojas reabrirem.

São 22 horas e a operação termina.

Alguns motoristas de táxi olham para os policiais com desânimo. “A operação é boa para segurança e o problema do assaltos”, afirma Michel Delgado, um dos taxistas.

“Mas a situação está péssima, ganhei 5 dólares esta semana quando normalmente ganhava 40 ... está tudo fechado. Temos família, é bem difícil”.

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