Polícia Civil faz operação contra 23 acusados de lavagem de dinheiro da milícia, incluindo casal suspeito de envolvimento em desabamento da Muzema

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RIO — Policiais da 18ª DP (Praça da Bandeira) desencadearam, na manhã desta quinta-feira, a operação Blood Money, com o objetivo de cumprir mandados de prisão temporária contra 23 pessoas acusadas do crime de lavagem de dinheiro da milícia das favelas da Muzema e de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio. As investigações contra a organização criminosa, de acordo com a polícia, partiram da apuração dos homicídios da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018, crimes que também deram origem às Operações Intocáveis I e II, na mesma região. A Justiça autorizou também a busca e apreensão em oito empresas que seriam usadas pelo grupo.

As investigações indicaram que a quadrilha ocultava os valores apurados em negócios ilícitos se utilizando de “laranjas” à frente de empresas, algumas de “fachada”, sobretudo no ramo da construção. Dois dos envolvidos, o casal Cintia Bernardo da Silva e Rafael Gomes da Costa, segundo o relatório, foram também alvo das investigações sobre o desabamento de dois prédios na Muzema, que causaram a morte de 24 pessoas em abril de 2019.

Cintia e Rafael movimentaram, entre créditos e débitos, significativa quantia de dinheiro com um dos principais alvos da operação de hoje, Laerte Silva de Lima, que já havia sido denunciado e preso na Intocáveis I, em janeiro de 2019. As provas colhidas pela polícia revelam que a milícia contava com um sistema que misturava dinheiro lícito com ilícito em sucessivas transações financeiras em técnica conhecida como “mescla”.

Laerte atuava na milícia comandada pelo ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, que foi morto na Bahia, no ano passado. Adriano também era chefe de um grupo de matadores de aluguel. Segundo o relatório das investigações da 18ª DP, Laerte encabeçava as transações ilegais ao lado de Francisco das Chagas de Brito Castro. Além da ligação com o Adriano na Nóbrega, a quadrilha também estava envolvida com o major Ronald Paulo Alves Pereira, o major Ronald, outro acusado de liderar a milícia da região.

Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Coaf, obtido pelo delegado Moysés Santana, titular da 18ª DP, responsável pelo caso, revela que houve “estratosféricas movimentações financeiras” pelos investigados. Chagas, por exemplo, movimentou através de suas contas correntes, a vultosa quantia de R$ 7.495.739,00, entre créditos e débitos, entre 2 de janeiro de 2017 e 27 de julho de 2018. Já Laerte, movimentou R$ 898.749,00, entre 1º de outubro de 2018 e 31 de março de 2019, ou seja, em quase seis meses.

Laerte e Chagas, segundo o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio (MPRJ), durante as investigações das operações Intocáveis, eram considerados de menor importância. O primeiro era considerado apenas como o “braço armado” da organização criminosa, um dos responsáveis pelo recolhimento de taxas ilegais de moradores e comerciantes (extorsão). Na segunda fase da Intocáveis, Laerte teria ligação com Chagas, que seria uma espécie de “laranja”. No entanto, ao se aprofundar nas investigações com a chegada do RIF, foi possível constatar que eles teriam também a função de atuar na lavagem de dinheiro.

De acordo com a representação pela prisão temporária dos envolvidos, Chagas não possuía lastro financeiro que justificasse a “suntuosa movimentação financeira” relacionada no RIF. Na época, ele relatou ao seu banco trabalhar como encarregado de obra da São Jorge Construção Civil, obtendo renda mensal de R$ 4 mil. A empresa, segundo a polícia e o MPRJ, faz parte de um grupo de empresas ligadas à organização criminosa desmantelada pela Operação Intocáveis, sendo que a São Jorge funcionava num apartamento. Outra empresa relacionada ao nome dele foi a São Michel Construção Civil, no ano de 2014 que, segundo os investigadores, estaria em nome de “laranjas”.

Além disso, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), entre 2 de janeiro e 25 de novembro de 2019, Chagas recebia renda de R$ 1.300, por mês. Também não tinha bens e ainda solicitou e recebeu auxílio emergencial do Governo Federal no ano passado, confirmando a condição de vulnerabilidade social.

Laerte, que ao ser preso em janeiro de 2019 foi flagrado portando uma arma de fogo de uso restrito, também não comprova lastro financeiro para o volume movimentado em sua conta corrente. Seu último vínculo empregatício, conforme consulta ao Caged, foi entre 1º de julho de 2007 e 20 de abril de 2011, quando era faxineiro. Na época, seu último salário foi de R$ 845. Ao setor de compliance do seu banco, informou ser camareiro, com renda mensal de R$ 7.228,37, já à 4ª Vara Criminal, afirmou ser corretor de imóveis. Nenhuma das profissões justificaria a movimentação de aproximadamente R$ 900 mil em seis meses, como identificou o Coaf. Na Intocáveis I, Laerte é acusado de fazer cobranças.

Entre as empresas que faziam transações com os dois alvos estão construtoras como a L.P. Empreendimentos e Construções, cujo nome fantasia é LP Imóveis, foi criada em fevereiro de 2016, com capital social de R$ 50 mil. Constam como seus sócios, originalmente, Leôncio Teixeira Miranda e Clébia Conserva Gondim Barros. O objeto social declarado era a “Gestão e Administração de Propriedade Imobiliária, Construção de Edifícios”. Em 16 de outubro do ano seguinte, o quadro societário foi trocado para Edson Carlos Ferreira de Souza e Marco Antonio Marques Ramalho Júnior, com o capital saltando para R$ 200 mil.

Segundo os investigadores da 18ª DP, os dois últimos sócios seriam “laranjas”. Ambos receberam auxílio emergencial e não têm bens em seus nomes. Na verdade, segundo o Caged, Edson é faxineiro, com renda de R$ 1.239, enquanto Marco Antonio, segundo a polícia, já foi preso por tráfico de drogas. As investigações comprovaram que o real dono da L.P. Empreendimentos e Construções é Luiz Príncipe, daí a sigla que dá nome a empresa. Clébia, a primeira a constituir a empresa, é mulher de Príncipe, e Leôncio, seu amigo.

Transações com 'altos valores'

O relatório da polícia informa que a L.P. fez transações com “altos valores” com vários dos investigados da Operação Intocáveis. A empresa remeteu R$ 183.316,00 para Chagas e dele recebeu R$ 213 mil. L.P. também recebeu R$ 105 mil de Isamar Moura, R$ 30 mil de Benedito Aurélio e R$ 82 mil de Cíntia Bernardo da Silva, esposa de Rafael Gomes da Costa, casal envolvido nos desabamentos da Muzema.

Para a polícia, ficou claro o vínculo dos investigados com o mercado imobiliário da região. Um trecho da representação pela prisão dos acusados informa que: “No caso dos autos, restou evidente que os ativos reciclados eram provenientes de atividades típicas de grupos paramilitares vulgarmente conhecidos como “milícia”, tais como extorsão de moradores e comerciantes por meio de cobrança de taxas, agiotagem, utilização de ligação clandestina de água e energia para abastecimento dos empreendimentos imobiliários, construção, locação e venda ilegal de imóveis, etc”.

Além de Laerte, Chagas, Príncipe, Clébia, Leôncio, Benedito, Isamar, Cíntia e Rafael, tiveram as prisões decretadas pelo juiz Marcello Rubioli da 1ª Vara Criminal Especializada: Patrick Muniz, Maykel Muniz, Anderson de Assumpção, Geraldo Mascarenhas, Antonia Almeida, Manoel de Brito, Maria de Souza, Júlio César Veloso, Wanderson Ferreira, Daniel Alves de Souza, Bruno Pupe Cancella, Adginaldo Santos, José Bezerra e Juscelino Sales. Também foi determinada a busca e apreensão, além do bloqueio de bens, das empresas: L.P. Empreendimentos e Construções, Prime Supermercado Eireli, Varela Motors, São Jorge Construção Civil, MM Compac Construção Civil, K Sabor LTDA, Construrio MZ e Adginaldo dos Santos Serviços de Pintura.

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