Polícia Civil indicia médico por assédio a pacientes no Rio

A Polícia Civil indiciou o cirurgião plástico José Ricardo Simões por importunação sexual a duas pacientes. Os dois casos aconteceram no consultório do médico, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. No dia 7, uma segunda vítima registrou ocorrência na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), de Jacarepaguá. Ele já estava sendo investigado em inquérito policial por assédio contra uma paciente durante consultas para procedimento estético, conforme mostrou reportagem do GLOBO. Em seu termo de declaração, a segunda vítima relatou que o médico ficou seminu e mostrou o pênis a ela. Procurados, o médico e seu advogado não se pronunciaram.

O episódio relatado pela segunda vítima a registrar ocorrência contra o cirurgião aconteceu na terceira consulta pós-cirurgia, em julho de 2020. Ela fez a troca de próteses de silicone nos seios dias antes e foi ao consultório avaliar a cicatrização. A mulher, de 38 anos, relatou à polícia que questionou o médico sobre a possibilidade de fazer uma tatuagem próximo ao local operado. Durante a conversa, ela disse que José Ricardo Simões a contou que havia feito uma tatuagem no braço com o mesmo tatuador. Sob o pretexto de mostrar a tatuagem, a vítima relata que o médico tirou a camisa, abaixou a calça até os joelhos e se virou para ela com o pênis à mostra.

— Na mesma hora eu levantei e saí da sala. Ele se vestiu e veio atrás de mim em uma sala de espera, me pediu desculpas, tocou meu rosto e me ofereceu uma cirurgia gratuita no nariz. Eu falei que não queria nada e fui embora. Na hora não sei dizer o sentimento que tive. Fiquei sem reação. Depois de um tempo eu procurei ajuda jurídica para denunciar o caso — diz a vítima.

Três dias depois do ocorrido, o médico mandou uma série de mensagens para ela, por meio de aplicativo, em que se oferecia para vê-la. Em um intervalo de 20 minutos, ele escreveu: “Eu quero falar com vc”. “De repente amanhã vou te ver. Isto é, se vc deixar”; “posso?”; “Posso???”, “Vc está me evitando?”. A vítima, então, responde, dizendo “Não”, “mas não estou entendendo”. O médico retorna: “Não”, “Ou não está querendo?”, “Eu entendo um não”. Ela responde: “Dr eu nunca quis nada”. Ele diz “ok” e ela responde “Você está confundindo alguma coisa”, e ele diz “Então me desculpe e esqueça este mal entendido”, “Morreu aqui o assunto”.

A vítima também declarou à polícia não saber o que aconteceu no momento de sua cirurgia de troca de implantes. Ela relembra o fato com angústia.

— Eu estava no quarto do hospital e pediram para eu colocar aquele roupão e eu me troquei. Em seguida, uma enfermeira me deu um comprimido, eu tomei e apaguei. Não vi anestesista, instrumentador, nada. Eu já fui operada antes, fui apresentada a toda equipe médica, mas com ele (José Ricardo Simões) não. Eu não sei o que aconteceu realmente. Depois disso, eu fiquei com alguns problemas ginecológicos por muito tempo. Eu comecei a ter crises de candidíase toda semana, de 2020 até esse ano, terminei o meu tratamento em abril. Passei por cinco ginecologistas — disse a vítima.

Em 2021, a mulher entrou com um processo cível contra o cirurgião plástico. Foi no momento da intimação que a defesa de José Ricardo Simões procurou o advogado da vítima para fazer um acordo extrajudicial para arquivar o processo, com o pagamento de indenização de R$30 mil. O contrato assinado por ambas as partes estabelecia, entre outras coisas, que a vítima não poderia mais se pronunciar sobre o caso, citar a existência do acordo e falar negativamente do médico pelas mídias sociais ou aplicativo de mensagens, sob pena de pagamento de multa do dobro do valor acordado, ou seja R$60 mil. O processo foi arquivado, mas diante da divulgação dos fatos na imprensa, a vítima voltou atrás e decidiu denunciar.

— Eu só quero que a justiça seja feita e que ele seja responsabilizado, que ele pare e que não tente calar mais ninguém. Tenho medo de retaliação, de ser julgada, mas o que me conforta é saber que agora podem acreditar em mim, outras pessoas podem confirmar a minha versão e que eu não estou sozinha. A mensagem que eu deixo para outras mulheres é que se acontecer, fala na hora. Não guarda, não espera — disse a vítima.

Ela também fez uma denúncia formal ao Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), em 2021, contra José Ricardo Simões e, de acordo com o advogado da vítima, foi instaurado um Processo Administrativo Disciplinar. Procurado, o Cremerj ainda não se manifestou.

Procurado para comentar o indiciamento, o advogado de defesa de José Ricardo Simões não atendeu aos contatos do GLOBO. Em contato anterior por telefone, a defesa havia informado que o médico não irá se pronunciar sobre o caso, que corre em sigilo. O cirurgião plástico também foi procurado por diversas vezes por e-mail, telefone e aplicativo de mensagens, mas não retornou aos contatos do GLOBO.

O caso veio à tona depois que uma paciente relatou, em entrevista exclusiva ao GLOBO, episódios de assédio que teriam sido praticados pelo cirurgião plástico. No registro de ocorrência feito na Deam de Jacarepaguá, a vítima acusa o médico de falar sobre suas preferências sexuais e a questionar sobre “aventuras fora do casamento”. Em um áudio gravado pela vítima em sua última consulta, em julho, ele diz à paciente que gosta de se masturbar enquanto olha uma mulher.

Na ocasião, ao avaliar a paciente nua, José Ricardo a pede para virar de costas e diz “Que bunda, hein?”. Na sequência, exclama a frase: “Você é gostosa”. Depois de perguntar nome e sobrenome dela, ele continua: “Eu vou te confessar: eu gosto mais de ver do que transar. Gosto demais de (usa uma expressão equivalente a se masturbar) olhando uma mulher do que transar”. O cirurgião fala outras coisas inaudíveis, até que afirma: “Aquele dia que você veio aqui, de sainha, achei um tesão”, se referindo à segunda consulta da paciente.

Ele segue no assunto falando que outras mulheres sentam em uma determinada cadeira do consultório para se masturbar, e questiona à paciente: “Você não gosta de fazer isso não? Não gosta de se mostrar?”. Cerca de dois minutos depois, ele também pergunta se ela “gosta de aventuras sexuais” e “aventuras fora do casamento”.

— Ele intercalava falas sobre a cirurgia com insinuações como “Nossa, você é uma delícia”, “Você é casada?”, “Você tem uma cara de safadinha”, “Você é séria? Gosta de aventuras sexuais?” — relembra a vítima. — Eu, querendo fazer a cirurgia e não querendo dar um fora nele, desconversava, levava na brincadeira ou respondia mais séria: “Não, doutor”. Quando eu falava assim, ele parava e voltava à consulta. Mas passava um pouco e ele voltava a se insinuar para mim. Chegou a dizer “Se você quiser, eu faço até outras coisinhas”.

Sobre este caso, O GLOBO procurou o cirurgião plástico José Ricardo Simões por diversas vezes por e-mail, telefone e aplicativo de mensagens. Em um primeiro telefonema, ele informou que gostaria que o advogado se pronunciasse sobre o caso, desligou em seguida e não retornou os contatos do GLOBO. O médico não informou o nome nem o contato do advogado que faz sua defesa.

A Deam informou que solicita que possíveis outras vítimas do mesmo autor procurem a Polícia Civil para que os casos possam ser investigados.