Polícia Civil investiga influência do tráfico e da milícia nas eleições do Rio e chama candidatos para depor

Arthur Leal
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Muzema e Rio das Pedras: áreas no Itanhangá são dominadas pela milícia e estão na mira dos investigadores

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Muzema e Rio das Pedras: áreas no Itanhangá são dominadas pela milícia e estão na mira dos investigadores

A democracia está sob ameaça no Rio de Janeiro. A afirmação é fruto de uma investigação feita pela força-tarefa da Polícia Civil contra a influência do crime organizado nas eleições deste ano. De acordo com os investigadores, em áreas dominadas pelo tráfico e pela milícia na cidade, bandidos ditam quem pode ou não fazer campanha. A informação foi divulgada pelo RJ2, da TV Globo, e confirmada pelo EXTRA.

Segundo o levantamento da Polícia Civil, 672 colégios eleitorais estão em areas dominadas por traficantes ou milicianos. Nestes locais, que se tornaram currais eleitorais, votam quase 2 milhões de eleitores. À reportagem do RJ2, candidatos denunciaram que não têm liberdade para fazerem suas campanhas dentro de certas localidades. “Eu não posso circular, senão não saio vivo“, queixou-se um candidato.

"Voce tem que escolher seu candidato e ficar calado. Porquê, senão, a gente corre risco de vida também, só em querer apoiar alguém", disse um morador. As investigações detalham ainda que o apoio do crime organizado aos candidatos é comprado em dinheiro ou com promessas de nomeações durante o mandato. Um modus operandi já conhecido.

A policia investiga, também, pelo menos 12 politicos, candidatos nas próximas eleições, por suspeitas de ligação com o crime organizado. De acordo com a apuração, eles teriam exclusividade garantida de campanha nos territórios dominados pelo tráfico ou pela milícia. A Polícia Civil adiantou dois nomes que devem ser chamados para depor nos próximos dias: Marcello Siciliano (Progressista) e Marcelo Diniz (Solidariedade). Ambos têm forte atuação na Zona Oeste. Diniz é presidente da Associação de Moradores da Muzema, e é figura presente nas redes sociais do órgão nas redes sociais. Ele foi ouvido em abril do ano passado, quando houve a tragédia no Condomínio Figueiras, que deixou 24 mortos. Siciliano tem mandato como parlamentar e tem sua atuação voltada, principalmente, à Barra da Tijuca e Itanhangá.

— Só elas (estas pessoas, investigadas) estão podendo fazer campanha em determinados redutos. Com o início da nossa ofensiva contra as milícias pela força-tarefa, automaticamente aumentou o número de denúncias aqui para a Polícia Civil. E nós temos outros dez candidatos (além de Siciliano e Diniz) já sendo checados pelas delegacias de bairro. Que fique claro: comprovadas estas denúncias, mesmo se eleitos, eles poderão ter seu mandato cassado — disse o secretário de Polícia Civil, Alan Turnowski, ao RJ2.

Procurado, Marcello Siciliano se disse surpreso e negou qualquer envolvimento com o crime organizado.

– Estou surpreso com isso. Mais uma vez, mostra a covardia que estão fazendo em cima de mim. Eu devo incomodar muito como parlamentar. Isso só me mostra que não faço nova política, velha política, faço a política certa – disse.

O parlamentar se defendeu, afirmando que, atualmente, as campanhas têm como foco as redes sociais, o que inviabilizaria qualquer possibilidade de curral eleitoral.

– Não existe isso. Voto é secreto. Eu não tenho poder, ninguém tem o poder de obrigar ninguém a votar em ninguém. Como existe curral em favela? Hoje nossa campanha é muito mais rede social. Chega de bater em mim. Já tentaram atribuir a mim um crime (caso Marielle Franco) que eu nunca nem passei perto de cometer, e nunca vão se retratar. Sou um cara do bem, se fosse ruim, estava preso. Passado limpo e cabeça erguida. Se sinônimo de trabalho é curral eleitoral, então que mudem de nome.

Marcelo Diniz, por sua vez, disse que não foi intimado para responder sobre o tema e que qualquer afirmação nesse sentido "não faz sentido algum".

– Apesar de ter sido injustamente acusado de receber benefícios e proteção de suposta milícia, vejo essa acusação como uma demonstração de que a nossa campanha está no caminho certo, crescendo e trazendo incômodo aos poderosos que se perpetuam no poder sem dar voz ao povo. A favela tem voz e ela não será calada por tentativas mentirosas. Na matéria, acusam a opressão que a milícia estaria fazendo ao impedir que candidatos fizessem campanha em algumas regiões, incluindo a nossa. Basta ver as postagens de alguns candidatos para ver que essa acusação não se sustenta. A nossa comunidade está abandonada pelo poder público e, pela primeira vez, temos a possibilidade de eleger um legítimo representante para a Câmara de Vereadores nas próximas eleições – disse.