Polícia de Hong Kong prende ex-parlamentares por protestos com líquido malcheiroso

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SAO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A polícia de Hong Kong prendeu três ex-parlamentares nesta quarta-feira (18) por terem utilizado substâncias malcheirosas durante protestos realizados no Conselho Legislativo da cidade nos meses de maio e junho. Ted Hui, Ray Chan e Eddie Chu, todos eles ativistas pró-democracia, foram acusados de usar substâncias nocivas com a intenção de causar danos, lesões mentais ou irritação a outras pessoas. Durante uma sessão do Conselho, em maio, Hui jogou uma planta podre no chão da sede do Parlamento. Chan e Chu, em junho, usaram a mesma estratégia em uma reunião no mês seguinte, mas usaram uma mistura de esterco líquido. A sessão foi marcada por brigas e empurrões e alguns dos parlamentares foram retirados por seguranças. O objetivo era obstruir a votação de projetos controversos que são considerados sinais da interferência de Pequim sobre Hong Kong, como a lei que criminalizou o desrespeito ao hino chinês. Nas duas ocasiões, a intervenção provocou a suspensão da sessão, embora o projeto tenha sido aprovado na sequência em outro espaço do Conselho. As prisões desta quarta ocorre exatamente uma semana depois da expulsão de outros quatro parlamentares pró-democracia. Em uma decisão vista como um novo movimento de Pequim para silenciar vozes dissidentes, Kwok Ka-Ki, Alvin Yeung, Dennis Kwok e Kenneth Leung tiveram seus mandatos cassados por serem considerados defensores da independência do território em relação ao regime central. Eles também estavam na lista de políticos que tiveram candidaturas invalidadas para as próximas eleições legislativas porque autoridades avaliaram que a promessa deles de lealdade a Hong Kong não era sincera. A expulsão dos quatro parlamentares levou todos os demais membros da bancada democrata do Conselho Legislativo a renunciar coletivamente aos seus cargos. Entre eles, estavam os três ativistas presos nesta quarta-feira. Depois de uma onda de protestos que levaram multidões às ruas contra o regime central de Pequim no ano passado, Hong Kong voltou a chamar a atenção da comunidade internacional neste ano devido a uma série de medidas que, na prática, restringem os direitos e liberdades individuais dos honcongueses. A principal delas foi a promulgação, em junho, da Lei de Segurança Nacional, que prevê punições para atos vistos como subversão, secessão, terrorismo ou conluio com forças estrangeiras. A nova legislação serviu de gatilho para novas manifestações de rua, apesar das restrições impostas para tentar conter a pandemia de coronavírus, e resultou em centenas de presos por atos como carregar bandeiras com slogans separatistas e publicar conteúdo considerado pró-independência nas redes sociais. O vácuo no Conselho Legislativo deixado pela renúncia dos parlamentares democratas também foi uma resposta à resolução que permite que autoridades de Hong Kong cassem direitos políticos de legisladores sem uma processo judicial prévio. A medida recebeu duras críticas da comunidade internacional, em especial dos Estados Unidos, com quem a China vive uma espécie de Guerra Fria 2.0, da União Europeia, cujos países-membros anunciaram uma série de sanções econômicas e diplomáticas contra Hong Kong, e do Reino Unido, que devolveu a cidade ao regime chinês em 1997, sob os termos de um tratado que previa autonomia do território em relação a Pequim. Parte das críticas está relacionada à formação do Conselho Legislativo de Hong Kong. Há 70 membros, nomeados com base em um sistema complexo que garante quase automaticamente a maioria ao bloco favorável a Pequim. Apenas 35 deputados são eleitos por votação direta, e os demais, indicados por grupos alinhados à China, o que, na prática, inibe qualquer projeto que seja contrário aos interesses do regime de Xi Jinping. As últimas eleições legislativas estavam marcadas para setembro, mas foram adiadas sob o pretexto de evitar a propagação do coronavírus. Segundo autoridades do território, a medida tinha como objetivo a garantia da segurança dos honcongueses, sem viés político. A repressão aos dissidentes que se seguiu ao adiamento, entretanto, reforça argumentos de ativistas pró-democracia que veem a decisão como mais um resultado da interferência de Pequim. A nova votação deve acontecer em setembro de 2021, mas devido às candidaturas invalidadas ainda não está claro de que forma o pleito poderá se dizer representativo de fato.