Polícia instala UPPs em Angra indo contra diagnóstico da corporação

Carolina Heringer
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Policiais do BAC fazem incursão no Frade, em Angra dos Reis, preparando o terreno para a implantação de UPP

Após cinco anos e sete meses desde a inauguração da última UPP, a da Vila Kennedy, já extinta, a Polícia Militar deu início à implantação de três novas unidades, em Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio, na última sexta-feira. Em um cenário de readequação e recuo desde meados de 2018, com o fim de algumas bases, o governador Wilson Witzel acenou com uma retomada do projeto. Para isso, optou por localidades conflagradas de Angra, indo contra estudos da própria PM. O primeiro diagnóstico feito pela corporação, em 2017, quando o programa dava sinais de desgaste, apontou a necessidade de extinguir justamente as unidades em áreas mais violentas.

Apesar disso, o governador começou a articular a implantação das UPPs no balneário na semana anterior ao Natal, após mais um episódio de violência. Segundo fontes ouvidas pelo EXTRA, a novidade pegou de surpresa integrantes da cúpula da PM, alheios aos planos dele.

O anúncio da chegada das unidades na Costa Verde do Rio foi feito no dia 23, com a presença do prefeito de Angra dos Reis, Fernando Jordão (MDB), e dos secretários de Polícia Civil e Militar. Witzel não conseguiu comparecer e participou por videoconferência. Com vistas à reeleição, de acordo com a coluna “Extra, Extra”, da jornalista Berenice Seara, Jordão está apostando nas UPPs para conseguir um novo mandato. Em postagem feita no Facebook, o político ressaltou que, apesar da Segurança Pública ser de responsabilidade do estado, vem trabalhando “em parceria” com Witzel nas UPPs. Ele assumiu a responsabilidade de reformar os imóveis que serão usados como bases das unidades.

O governador já havia “baixado” em Angra em maio, em pleno fim de semana, após mais um capítulo da guerra de facções criminosas na cidade. Na ocasião, posou ao lado de Jordão prometendo “dar fim à bandidagem” no município.

Para coronel, retomada ‘causa certa estranheza’

O coronel da reserva e ex-comandante das UPPs Robson Rodrigues afirmou que se surpreendeu com a decisão da PM de retomar o projeto das UPPs. Ele ressaltou que antigos erros não podem ser repetidos pelo atual governo.

— Causa certa estranheza porque todo movimento foi para acabar com as UPPs. No entanto, é importante dizer que um dos problemas do projeto na época foi atender muito mais a critérios políticos do que técnicos. Foi aí que a gente viu o caminho da derrocada. O projeto não é ruim, é bom, audacioso. Mas coisas como essas não podem se repetir — ressaltou ele, que comandou as UPPs entre 2010 e 2011.

As bases de Angra devem ser inauguradas no fim do mês. Até lá, policiais do Comando de Operações Especiais (COE) terão a função de estabilizar as três localidades (Frade, Camorim Grande e Belém). O 33º BPM (Angra) recebeu mais 120 PMs, que serão o efetivo das unidades. Como trabalham 24h e folgam 72h, haverá 30 policiais disponíveis por dia para o projeto. Serão 10 PMs por UPP.

Por enquanto, os policiais reforçam o patrulhamento em pontos da Rodovia Rio-Santos. Eles passaram por reciclagem ministrada pelo COE, cujos PMs têm perfil operacional, diferente do conceito social do programa de pacificação. As unidades ficarão em casas nos bairros, a serem reformadas pela prefeitura, que decidirá se vai alugar ou comprar os imóveis.

‘Essa UPP é apenas promessa’

A antropóloga e professora da UFF Jacqueline Muniz fez duras críticas ao efetivo previsto para as UPPs em Angra:

— Os recursos são incapazes de colocar de pé essas três bases. Estão aquém do que é necessário. Com essa estrutura, não se chega nem à esquina. Por enquanto, essa UPP é apenas uma promessa.

A professora afirma ainda que o modelo que está se desenhando na Costa Verde é uma repetição de um antigo de policiamento:

— É um retorno aos anos 80, quando se criou postos de polícia comunitários. O que aconteceu foi que o policial ficava ali, vigiando a cabine, porque não tinha capacidade ostensiva para fazer nada diferente daquilo.

Procurada, a assessoria de imprensa da PM afirmou que a decisão de pacificar os bairros de Angra “foi precedida de estudos técnicos, envolvendo especialistas de diversas áreas do poder público estadual e municipal, como também da iniciativa privada”.