Polícia invade nova cracolândia e expulsa usuários da praça para prender traficantes

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Polícia Civil e a Prefeitura de São Paulo realizaram nesta quarta-feira (11) uma megaoperação contra o tráfico de drogas na praça Princesa Isabel, região central da capital, novo endereço da cracolândia desde a migração do fluxo de usuários no dia 18 de março.

Cinco pessoas foram presas, incluindo duas já eram procuradas, disse a polícia. As outras três foram pegas em flagrante por tráfico de drogas. Houve apreensão de crack, tijolos de maconha, 19 balanças de precisão, facas e ao menos duas armas falsas.

Com a ação, os dependentes químicos se espalharam pelas ruas do centro. Houve ainda registro de trânsito travado em várias vias da região e mais de 30 linhas de ônibus tiveram que ser desviadas.

A operação começou por volta das 4h, quando uma parte dos usuários começou a deixar a praça e a desmontar as barracas. Policiais do Choque e da Iope, grupo de elite da GCM (Guarda Civil Metropolitana), abordaram os dependentes químicos e os mandaram se sentar embaixo da estátua de Duque de Caxias. "Todo mundo para debaixo do cavalo", gritaram os oficiais.

Antes da chegada dos policiais, a concentração de usuários na praça estava bem abaixo do normal.

Segundo a polícia, as barracas são usadas por traficantes para vender as drogas sem serem flagrados pelas câmeras de segurança. Havia 36 mandados de prisão expedidos pela Justiça com base nas investigações da Operação Caronte, segundo a Polícia Civil.

"A polícia não vai permitir o tráfico de drogas nesse local", disse o delegado Roberto Monteiro, da 1ª Delegacia Seccional do Centro. A megaoperação contou com efetivo de 500 oficiais, o que inclui o contingente da PM e da GCM.

"A polícia não vai permitir o tráfico de drogas nesse local", disse o delegado Roberto Monteiro, da 1ª Delegacia Seccional do Centro. A megaoperação contou com efetivo de 500 oficiais, o que inclui o contingente da PM e da GCM.

De acordo com integrantes da prefeitura ouvidos pela reportagem, a intenção era remover todos os usuários da praça que, futuramente, pode ser transformada em um parque. "Hoje, na verdade, essas barracas são utilizadas para encobrir o tráfico. Todas as barracas serão tiradas porque elas não são utilizadas para moradia, mas sim para guardar droga e encobrir o tráfico", disse o delegado Severino Pereira de Vasconcelos, do 77º (Campos Elíseos).

Os usuários sentados debaixo da estátua foram revistados e encaminhados para a rua General Rondon, perpendicular à praça, onde estavam as equipes de assistentes sociais.

A previsão era encaminhar os usuários para vagas nas unidades do Siat (Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica), o que não ocorreu inicialmente. Dependentes químicos que procuraram internação durante a madrugada não foram atendidos e a unidade do Caps localizada em frente à praça Princesa Isabel, criada para atender o fluxo da cracolândia, ficou fechada durante a operação. Segundo funcionários, houve temor de que os usuários invadissem o espaço para fugir da ação policial.

Havia a previsão de serem montadas tendas da Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) para o atendimento dos usuários, o que também não ocorreu no momento da operação —as equipes de saúde só chegaram à praça mais tarde para realizar os atendimentos.

​"Eles [usuários] serão encaminhados caso queiram se internar voluntariamente. À vontade. Se não quiserem, vão ficar perambulando por aí. Eles poderão retornar [para a praça] desde que não tragam utensílios. [Montar] barraca está proibido. Vai ter essa mudança ali na praça, mesmo porque ela vai ser quase tomada completamente para revitalização", disse o delegado.

Mais tarde, a Prefeitura de São Paulo informou que realizou 146 atendimentos de assistência social durante o período da madrugada e o fim da manhã desta quarta-feira. Além disso, o Caps (Centro de Atenção Psicossocial) recebeu 17 pessoas em busca de acolhimento terapêutico.

A Secretaria Municipal de Saúde disse ainda que os profissionais do Caps são orientados a abaixarem as portas durante "ações de segurança que possam gerar reação do fluxo e, consequentemente, interferir no andamento dos trabalhos da unidade, além de garantir a segurança de acolhidos e funcionários".

A Polícia Civil diz que a operação foi necessária para impedir novos episódios violentos na praça como o que ocorreu nesta terça, quando houve confronto entre usuários e guardas-civis metropolitanos durante ação de limpeza. A confusão se estendeu por quase duas horas. Segundo a GCM e a Polícia Civil, ninguém foi preso. "Nós estamos bem amparados para fazer essa operação, porque eles estão enfrentando muito", diz o delegado Vasconcelos.

Segundo ele, a ideia também é combater, a partir de agora, o consumo de drogas em vias públicas. "Podem ficar [na praça], mas, sem barraca. Eles serão encaminhados para esses órgãos de assistência, por enquanto", disse. ​

A maior parte dos usuários que deixaram a praça durante a ação policial passou a ocupar as calçadas no entorno. Uma banca de jornal na avenida Duque de Caxias foi transformada em abrigo para o consumo ostensivo de crack.

Dependentes que conseguiram carregar colchões e cobertores se instalaram na calçada oposta à praça, na avenida Rio Branco —muitos usuários passaram o dia andando pela via, uma das principais do centro da cidade.

Um grupo formado por cerca de 20 usuários se instalou embaixo do viaduto Orlando Mugel, que fica a cerca de cinco quadras da Princesa Isabel. A região da praça Júlio Prestes, onde ficava a antiga cracolândia, permaneceu vazia.

Todos acreditavam que iriam voltar para a praça no momento em que as equipes de zeladoria terminassem a limpeza, como costuma ocorrer.

Segundo o secretário municipal de Projetos Estratégicos, Alexis Vargas, que acompanhou a ação, o número de pessoas abordadas no entorno da cracolândia que aceitaram ir para os Siats, entre janeiro e março deste ano, foi sete vezes maior do que o mesmo período de 2021. E os atendimentos no Caps da Luz aumentaram 20%. "Quando dispersa o fluxo os usuários ficam mais propensos a aceitar tratamento", disse.

MIGRAÇÃO PARA A PRAÇA

A concentração de usuários de drogas deixou de ocupar o entorno da praça Júlio Prestes, na região central de São Paulo, e se mudou para a praça Princesa Isabel, em março após ordem do crime organizado, de acordo com a polícia.

Prefeitura e governo estadual, porém, divergem dessa versão. A administração municipal afirmou que a dispersão da cracolândia ocorreu de forma pacífica. Não houve "nenhum tipo de negociação com o crime organizado", disse o secretário-executivo municipal de Projetos Estratégicos, Alexis Vargas.

O então governador João Doria (PSDB) desmentiu a Polícia Civil e negou qualquer influência do crime organizado na mudança.

A Polícia Civil explica que a migração foi uma reação dos criminosos à Operação Caronte, deflagrada em abril do ano passado para prender traficantes na cracolândia.

Como parte da operação, a prefeitura emparedou os imóveis no entorno da praça Júlio Prestes usados como esconderijo de drogas e rotas de fuga, segundo as investigações. A operação identificou 105 alvos e prendeu 79 pessoas.

Conforme a Folha de S.Paulo mostrou, 8 em 10 presos pela operação Caronte na cracolândia têm passagem por tráfico de drogas.

Segundo a polícia, antes da migração, o tráfico de drogas ficou a cargo de usuários de drogas que prestam serviços em troca de pequenas porções de crack, conhecidos como "lagartos". A estratégia foi uma forma de poupar os traficantes de serem presos numa eventual ação policial, que se tornaram constantes.

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