Polícia investiga maus-tratos em treinamento de soldados no Acre: 'Comecei a convulsionar'

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RIO — A Polícia Civil do Acre abriu um inquérito para investigar denúncias de maus-tratos no curso de formação de soldados da Polícia Militar do estado. O procedimento vai apurar os relatos feitos pelo aluno João Paulo Bortolozo, de 30 anos.

Em 15 de setembro, o GLOBO mostrou que outros alunos do mesmo curso de formação tinham delatado situações semelhantes de agressões durante as aulas. Bortolozo afirma ter sido vítima de uma série de atos violentos durante os treinamentos, em especial no ocorrido em 18 de setembro. Nesta data, ele participou de uma marcha de 10 quilômetros, finalizada em uma área do Bope.

— A corrida terminou lá no Bope, lá atrás, no centro de treinamento, dentro da mata. Aí me colocaram para fazer mais exercícios e eu nada de desistir. E eles: espera aí que eu vou fazer ele desistir. Aí três caras e uma mulher me pegaram e me levaram para dentro do mato, pedindo para eu assinar a folha de desistir, e eu falava que não — disse.

Bortolozo afirma que, em seguida, um instrutor veio por trás, deu-lhe uma gravata pelo pescoço, e o pulou com o aluno para dentro da água.

— Ele já pulou comigo dentro de um igarapé, dando caldo, me afogando. Quando eu estava para morrer eu gritei: vou assinar, vou assinar, pelo amor de Deus, eu assino. Quando me tiraram de dentro d'água eu falei que não iria assinar mais de jeito nenhum, aí o cara me deu um soco no meio do peito, outro nas costas, e uma mãozada no meio da minha cara. Aí eu já arriei no chão — denuncia.

Convulsão

Apesar das agressões, Bortolozo conta que mais uma vez resistiu a desistir do curso de formação. Ele sustenta que os instrutores tentaram levá-lo novamente para a água e ele se segurou enquanto pôde em pedaços de pau.

— Quando eu vi que iria para água de novo, resolvi assinar. Aí depois eu só me lembro que eu comecei a convulsionar, fiquei todo torto, tipo epilepsia, e desmaiei. Só lembro que acordei dentro de uma ambulância. Nem médico tinha, só dois policiais enfermeiros — afirmou o aluno.

Bortolozo afirma ainda que ficou sem água durante um longo período de treinamento. Quando não aguentava mais de sede, um policial pegou uma garrafa de água mineral, colocou na boca, fez bochecho e em seguida cuspiu para o aluno beber.

De acordo com Bortolozo, a animosidade dos instrutores começou no primeiro dia de curso. Na ocasião, os policiais informaram estar cientes de uma situação envolvendo a Lei Maria da Penha. O aluno admite que respondeu processo por violência contra a mulher, mas foi arquivado.

O denunciante não teve qualquer impedimento para se inscrever no concurso público e ser admitido nos quadros da Polícia Militar. No boletim de ocorrência, ele afirma que os instrutores disseram que "seu lugar não era na corporação, porém, iriam dar um jeito nisso.

Investigação

O exame de corpo de delito foi realizado cinco dias após as agressões, em 23 de setembro, na Policlínica da PM. Para Bortolozo, a demora teve um objetivo: a redução dos hematomas.

O delegado Igor Moura de Brito, da Delegacia de Tucumã, instaurou um inquérito para investigar as denúncias. Ele disse ao GLOBO que aguarda o resultado da perícia e que nesta terça-feira deve enviar uma cópia do procedimento para a Corregedoria da PM e para a promotoria de Controle Externo da Atividade Policial, do Ministério Público do Acre.

Bortolozo já foi ouvido. Segundo o delegado, outros alunos do curso serão chamados para prestar depoimento, assim como os instrutores.

— Se de fato ocorreram esses fatos eu não posso dizer. Estou esperando o resultado do exame de corpo de delito, posteriormente vou ouvir os demais envolvidos e vamos ver se houve um eventual crime de lesão corporal ou abuso autoridade — disse Brito.

Procurados pelo GLOBO, a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Militar do Acre não se manifestaram. Bortolozo também denunciou as agressões na Defensoria Pública Estadual.

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