Polícia investiga se Flordelis fraudou registro de filho que afirma ser biológico

Carolina Heringer

A Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo investiga se houve fraude no registro de nascimento de um dos filhos da deputada federal Flordelis dos Santos (PSD) com o pastor Anderson do Carmo, assassinado em junho. Daniel dos Santos de Souza, de 21 anos, sempre foi apresentado como o único filho biológico do casal. No entanto, após o crime, foram levantadas suspeitas de que o rapaz é adotado. A informação foi dada em julho pela mãe de Anderson, Maria Edna do Carmo, em depoimento à DH, que também apura a morte do pastor.

A polícia conseguiu localizar uma mulher que afirma ser mãe biológica de Daniel. Ela relatou que concordou em entregar o filho para Flordelis, pois não tinha condições de cuidar do menino. A mulher relatou , no entanto, ter tentado contato com o filho posteriormente, mas afirma ter sido impedida. Como o EXTRA revelou em setembro, Daniel nunca foi adotado pelo casal e foi registrado como se fosse filho de ambos.

Na Certidão de Nascimento de Daniel consta que ele nasceu em casa. A mulher que afirma ser mãe do rapaz contou à polícia que ele nasceu em uma maternidade em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio, que já fechou as portas.

Registrar o filho de outra pessoa como seu é crime previsto no Código Penal. A pena para o delito é de dois a seis anos. Flordelis foi eleita deputada federal no ano passado, com quase 200 mil votos, tendo como uma das bandeiras a desburocratização da adoção no Brasil. Procurada, a assessoria de imprensa da deputada afirmou que ela não comentaria as informações sobre Daniel.

Flordelis é investigada pela DH por suspeita de participação na morte de seu marido, o pastor Anderson do Carmo. Dois filhos da deputada - Lucas Cézar dos Santo e Flávio dos Santos Rodrigues - já são réus pelo crime.

Outras irregularidades

A situação de Daniel não é a única na casa de Flordelis que está sob suspeita. O EXTRA também revelou, em setembro, que a primeira criança recolhida por Flordelis, em 1993, na Central do Brasil, nunca foi formalmente adotada. menina Rayane dos Santos Oliveira, levada para a casa da parlamentar com poucos dias de vida, ficou sob os cuidados de Simone dos Santos, filha biológica de Flordelis, e foi registrada como sua filha sem passar pelo aval de um juiz. O EXTRA apurou que não há nenhum processo na Justiça sobre a adoção da jovem.

Ainda que desejasse adotar Rayane, Simone seria impedida por lei. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que a diferença de idade entre quem adota e quem está sendo adotado precisa ser de, no mínimo, 16 anos. A diferença entre Simone e Rayane é de apenas 13 anos. Procurada pelo EXTRA, a assessoria de imprensa de Flordelis se recusou a dar uma resposta sobre o fato de Rayane não ser adotada.

Rayane foi registrada como filha de Simone e de André Luiz de Oliveira, filho afetivo de Flordelis. André e Simone foram casados, mas se separaram há cerca de 10 anos. Pela previsão do Estatuto da Criança e do Adolescente, André Luiz também não poderia sequer adotar Rayane, pois a diferença de idade entre eles é de 15 anos.

O EXTRA também descobriu que Flordelis ainda mantém uma adolescente em situação irregular em sua casa há pelo menos seis anos. A parlamentar não possui a guarda da jovem e nunca entrou com um processo para adotá-la. Após a publicação da reportagem, a deputada foi chamada a dar explicações no Conselho Tutelar do Largo da Batalha, em Niterói. No órgão, ela admitiu ter poucas informações sobre a origem da menina e não sabia o paradeiro de sua família. O caso foi registrado na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) de Niterói, que abriu uma investigação para apurar as adoções feitas por Flordelis.