Polícia investiga se guerra entre tráfico e milícia motivou ataque à vereador no Rio

Rafael Soares e Rafael Nascimento de Souza
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A Delegacia de Homicídios (DH) apura se uma disputa entre traficantes e milicianos pelo controle do bairro de Anchieta, na Zona Norte do Rio, está por trás do ataque ao vereador Zico Bacana (Podemos). Há pelo menos dois anos, a região é palco de uma guerra entre traficantes da maior facção do Rio que dominam o Complexo do Chapadão, na Pavuna, e um grupo de milicianos que tenta se instalar no local. A polícia investiga se o alvo do ataque era o parlamentar e qual é a relação dele com a milícia que atua em Anchieta.

O bairro é um dos redutos eleitorais de Zico, junto com Ricardo de Albuquerque e Guadalupe. Na região, a milícia já controla a venda de gás e o transporte alternativo. Antes do ataque, o vereador compareceu a um torneio de futebol num campo do bairro.

Zico foi ferido por um tiro de raspão na cabeça. Dois homens foram mortos no tiroteio. Um deles foi identificado: Valmir Cleri Sampaio Bandeira. Ele é morador do bairro e também estava no bar. Segundo testemunhas, o outro morto, Davison Ferreira da Silva, o Da Roça, integra o tráfico da favela Final Feliz, que integra o Complexo do Chapadão, e teria participado do ataque.

Zico é policial militar, foi citado no relatório final da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e chegou a prestar depoimento no inquérito que apura o assassinato de Marielle Franco. O parlamentar, que é candidato à reeleição na Câmara do Rio, participou durante a tarde de uma partida de futebol em Ricardo de Albuquerque, bairro vizinho, e estava num bar no momento em que foi alvo dos disparos.

Homens saltaram de dois carros e passaram a atirar contra o vereador, que reagiu. Seguranças que estavam com ele também atiraram. Peritos encontraram 15 marcas de disparos no carro blindado de Zico, que estava estacionado a poucos metros do bar. No chão do estabelecimento comercial, foram encontradas 35 cápsulas de munição.

O vereador, que foi levado para o Hospital estadual Carlos Chagas e teve alta médica na manhã desta terça-feira, foi ouvido por agentes da Polícia Civil e afirmou que acredita ter sido alvo de uma tentativa de execução. Ele também declarou que não possui inimigos ou opositores políticos de quem possa suspeitar.

Em 2008, antes de ser eleito, seu nome foi citado na CPI das Milícias como um dos chefes da “milícia na Comunidade Eternit em Guadalupe”. Segundo o relatório, ele “teria ligações com a milícia da Comunidade da Palmeirinha em Honório Gurgel”. Todas essas favelas, hoje, são dominadas pelo tráfico. Zico nunca foi sequer indiciado por integrar milícias.

Após os suspeitos atacarem o parlamentar, eles fugiram em direção a Nilópolis. Antes de chegarem no município que fica na Baixada Fluminense, eles encontraram uma viatura do 20° BPM (Mesquita). Segundo a Polícia Civil, houve um novo tiroteio e um PM foi baleado no braço. O agente foi socorrido para um hospital local. Os dois carros que teriam sido usados pelos criminosos foram encontrados em Nilópolis. A DH já periciou os dois veículos.

Zico Bacana deveria prestar um novo depoimento na tarde desta terça. No entanto, por conta de uma internação repentina, o parlamentar será ouvido nos próximos dias. Os investigadores querem saber se o político tem ligação com milicianos que atuam na região do crime.

Um mês após a morte de Marielle Franco, Zico foi chamado a depor na Delegacia de Homicídios (DH) como testemunha. Na época, a especializada investigava a presença de milicianos entre seus assessores na Câmara. Zico e Marielle foram eleitos pela primeira vez em 2015 e ambos ocupavam gabinetes no sétimo andar da Casa na época do crime. Ele sempre negou qualquer relação com o crime.

— Queria que elucidassem esse caso o mais rapidamente possível, para mostrar o verdadeiro autor. Espero que descubram quem fez isso — afirmou Zico Bacana ao sair da delegacia.