Polícia paraguaia busca meninas alemãs sequestradas por pais antivacina

Se Clara Magdalena Egler, de 10 anos, estivesse em sua casa na Alemanha, iria às aulas de ginástica e acrobacia, mas faz seis meses que sua mãe não a vê. Lara Valentina Blank, outra alemã desaparecida, comemoraria seu aniversário de 11 anos com a família e vizinhos. A última coisa que seu pai sabe sobre ela, contudo, é que está desaparecida desde 27 de novembro de 2021.

As autoridades acreditam que ambas estejam no Paraguai, escondidas em uma comunidade alemã antivacina. As crianças entraram juntas na América do Sul com duas pessoas que não têm mais suas guardas: o casal formado pelo pai de Clara, Andreas Rainer Egler, e a cantora de ópera Anna Maria Egler, mãe de Lara.

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O casal, que viajou com as meninas sem a autorização legal de seus ex-parceiros, "supostamente pretendia morar em alguma comunidade antivacina no interior do país". Acredita-se que eles "pertençam a grupos antivacina e neguem a existência de Covid-19", informou a Coordenação dos Direitos da Criança do Paraguai, ONG que acompanha a busca pelas crianças desde o início.

— Ela adora estar com as amigas, sempre precisa das amigas para fazer acrobacias — disse Anne Maja Reiniger-Egler, mãe de Clara, que está em Assunção em busca da filha.

Na segunda, diante das câmeras, Reiniger-Engler chorou pedindo para que o povo paraguaio ajude na busca pelas meninas. Sua primeira viagem a Assunção foi em fevereiro, acompanhada do atual marido e de Filip Blank, o pai de Lara. Fizeram o possível para explicar o caso às autoridades de ambos os países e realizaram buscas, sem sucesso até agora.

Berlim e Assunção iniciaram processos judiciais e criminais para o retorno das meninas à Alemanha. Deram início também o processo de extradição de Andreas Rainer Egler e Anna Maria Egler, procurados pela justiça alemã “por cometerem o ato punível de sequestro de pessoas”. Há ainda um alerta para sua prisão no Paraguai, informou a polícia durante uma entrevista coletiva.

A justiça alemã revogou a autoridade parental de Andreas Rainer Egler e Anna Maria Egler, dando a guarda exclusiva de Clara e Lara para Anne e Filip, respectivamente. Até o ano passado, tanto Anne quanto Filip diziam ter uma relação fluída com seus ex-parceiros, até mesmo boa:

— Éramos os melhores pais separados. Os melhores pais que a Lara poderia ter — disse Filip à ex em um vídeo publicado nas redes sociais, implorando para que ela volte.

Inicialmente, Andreas e Anna Maria procuraram se estabelecer em um bairro de origem alemã próximo a La Colmena, no interior do Paraguai, a cerca de três horas de carro da capital. Agora, dizem as autoridades, suspeita-se que estejam na área de Villarrica ou Colonia Independencia, duas regiões também com comunidades alemãs.

São comunidades em muitos casos centenárias, mas que nunca deixaram de receber novos visitantes. Vários dos novos moradores aproveitam as lacunas na lei paraguaia para não se vacinarem ou driblarem as restrições nos seus países de origem.

As autoridades, contudo, não descartam que Andreas e Anna Maria tenham levado as meninas para outra região ou cruzado ilegalmente a fronteira para o Brasil ou a Argentina. Segundo o comissário anti-sequestros do Paraguai, Mario Vallejos, o fato de algumas comunidades alemãs serem bastante fechadas dificulta as investigações.

— Andreas, por favor, acabe com essa situação que tira o meu sono e o sono de tantos de nós. Entre em contato conosco, com os advogados ou com alguma pessoa de sua confiança. Vamos encontrar juntos uma solução. Clara e Lara certamente não estão muito bem com isso. Elas não podem passar o resto de sua infância em fuga — disse Anna a repórteres. — Ponho todas as minhas esperanças no povo paraguaio. Por favor, nos ajudem, sou uma mãe desesperada.

O desaparecimento das meninas parece não ser um caso isolado, já que os números vêm aumentando desde o início da pandemia. De acordo com o Escritório Federal de Justiça da Alemanha, foram 186 casos de sequestro interparental em 2017. Em 2020, o número chegou a 242, ultrapassando 250 em 2021.

Durante a pandemia, a Alemanha se tornou a nação europeia com o maior número de expatriados no Paraguai, que já são a terceira maior comunidade de imigrantes do país, atrás apenas de brasileiros e argentinos. Pelo menos 1.644 alemães concluíram seus pedidos de residência no Paraguai em 2021, segundo a Diretoria de Migração informou ao El País, quase o triplo de 2020. Até o fim de março deste ano, outros 575 processos foram concluídos.

Alguns religiosos e ultraconservadores veem o Paraguai como um refúgio das vacinas. Oficialmente, há neste momento há 7.731 alemães vivendo no país, mas o número real é desconhecido devido à permeabilidade das fronteiras paraguaias: não é difícil entrar ou sair caminhando ou navegando por um dos 3,7 mil quilômetros compartilhados com o Brasil, a Argentina e a Bolívia.

A embaixada alemã em Assunção trabalha com números diferentes dos paraguaios: o cônsul Frank Gauls estima que entre 22 mil e 30 mil alemães vivam no Paraguai. E acrescenta que, dos 7 milhões de habitantes que o país tem, até 300 mil são de origem alemã, segundo disse ao jornal ABC Color.

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