Polícia usa bombas e balas de borracha na cracolândia; moradores fecham rua em protesto

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Polícia Civil desencadeou na tarde desta quinta-feira (1°) uma operação na cracolândia da rua Helvétia, em Campos Elíseos, centro de São Paulo. O objetivo era prender dez pessoas, entre as quais um homem apontado pela corporação como "disciplina" do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Após o início da ação, a menos de um quilômetro dali, moradores e comerciantes promoveram um ato para cobrar do poder público uma solução para a presença de usuários de drogas na região.

Os policiais chegaram à Helvétia por volta das 14h30. Houve o uso de bombas de som e o disparo de balas de borracha. Usuários de drogas correram em direção à avenida São João, que cruza a Helvétia. Uma pessoa foi ferida no pé com uma bala de borracha.

Sete foram presas, sendo duas delas em flagrante por tráfico de drogas.

Mais tarde, por volta das 16h, cerca de 20 pessoas, entre moradores e comerciantes, passaram a protestar no cruzamento das ruas Conselheiro Nébias e Vitória, a menos de 1 km da Helvétia.

O grupo ateou fogo em pneus e gritava "fora, cracolândia", mesma mensagem reproduzida em cartazes.

Usuários de drogas acompanharam de perto a manifestação, mas, com a chegada da polícia, deixaram o local e seguiram em direção à avenida Rio Branco.

"A gente está com dificuldade para pagar as contas. Os clientes não vêm mais por medo de assalto e da aglomeração dos usuários de droga", disse o comerciante Luciano Paixão da Silva, 44.

O objetivo do protesto, segundo ele, era alertar o poder público da situação da cracolândia. Os manifestantes reivindicaram a instalação de uma base fixa da Polícia Militar.

"Saio de casa 6h30 para trabalhar e não consigo dormir, não consigo assistir TV. O som das caixas entra dentro de casa", afirmou a massoterapeuta Leni Antunes, 50, que também participava do ato.

Além do barulho, moradores da região central relatam brigas e venda e consumo de drogas na porta de suas casas durante a madrugada.

A operação policial desta quinta (1º) ocorre um dia depois de policiais do 77º DP (Santa Cecília) encontrarem na Santa Casa de Misericórdia um homem que teria sido vítima de tortura no fluxo, como é chamada a concentração de dependentes químicos.

A vítima está internada na ala de ortopedia, com fraturas no braço esquerdo e na cabeça. O homem, que é usuário de drogas, foi agredido na Helvétia e teve roubada a quantia de R$ 80 pelo homem apontado como "disciplina" no fluxo.

"Disciplina" se refere a integrantes do PCC que têm como finalidade fiscalizar e impor as regras da facção criminosa.

O suspeito foi identificado como Lucivaldo Pereira Santos, conhecido como Bahia. A agressão teria ocorrido após ele suspeitar que a vítima teria furtado crack.

A polícia também apurou que as agressões só aconteceram depois terem sido autorizadas por Alexandro dos Anjos Ferreira, o Veiote, que também é apontado como "disciplina" na região da cracolândia.

Tanto Santos quanto Ferreira não constavam da lista de pessoas presas na operação desta quinta, até as 16h.

MIGRAÇÃO

A cracolândia da região central se tornou alvo de uma série de operações policiais neste ano, sobretudo após a migração do fluxo.

Em março, usuários deixaram as ruas do entorno da praça da Júlio Prestes rumo à praça Princesa Isabel, também na região central. A ordem teria partido do crime organizado, de acordo com a polícia.

O então governador João Doria (PSDB) negou qualquer influência do crime organizado na mudança. A prefeitura afirmou que a dispersão da cracolândia se deu de forma pacífica.

Passados menos de dois meses, em maio, uma megaoperação da Polícia Civil e da prefeitura foi efetuada na Princesa Isabel, levando os usuários a se espalhar pela região central.

Dependentes ocuparam, então, ao menos 16 pontos do centro, segundo levantamento LabCidade (Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade, ligado à USP).

A mudança impactou a vida de moradores e comerciantes. Em julho, houve saque a um estabelecimento na rua Guaianases e confronto entre vendedores de lojas da Santa Ifigênia e usuários de drogas.

No mês passado, o Liceu Coração de Jesus, que fica em Campos Elíseos, anunciou que manterá suas atividades escolares somente até o fim do ano letivo. Motivo: a falta de segurança no entorno resultou na perda de alunos, nos últimos anos.