Polícia vai abrir nova investigação para saber se alguém ficava com aposentadoria da idosa resgatada em cárcere privado

Geraldo Ribeiro

RIO - A polícia vai instaurar uma nova investigação para apurar quem recebia a aposentadoria da idosa resgatada de uma casa em Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio onde, segundo os agentes, Maria das Graças de Sousa Rodrigues, de 75 anos, vivia em cárcere privado e condições análogas à escravidão. A dona do imóvel, uma mulher de 82 anos, foi presa em flagrante.

Numa consulta que fez no portal do INSS, na internet, a enfermeira Raquel Rodrigues de Castro Belfort, de 46 anos, sobrinha da idosa e que mora no Maranhão, descobriu que a tia se aposentou em 2007 e o benefíciio foi pago até 2017, estando cancelado no momento. Ela acredita que isso tenha ocorrido em função da ausência da prova de vida, que deve ser feita anualmente. Raquel, que pretende vir ao Rio no começo da semana que vem para buscar a tia, não quer que a situação fique impune, em função da idade avançada da acusada.

— Isso não pode ficar impune para evitar que outras pessoas passem pelo que passamos. É horrível uma pessoa com família viver assim em condições subumanas. Quero também os direitos trabalhistas da minha tia. Ela foi escravizada. Ninguém pode dispor assim da vida de outra pessoa. Quero transformar nossa dor e sofrimento em luta. A gente não pode ficar omissa. Quero incentivar pessoas que passam por situação parecida porque omissão mata — disse.

No primeiro dia fora da casa de Pedra de Guaratiba, Maria das Graças experimentou roupas novas. No café da manhã tomou suco de laranja, leite e comeu biscoitos. Ainda essa semana deve ser levada para uma consulta médica. A idosa está na casa de amigos da família em Pilares, que se consideram parentes por terem sido muito próximos uns dos outros quando viviam no interior do Maranhão. Lúcida, mas com alguns lapsos de memória, aos poucos ela vai contando como era a sua vida.

— Ela contou que estava nessa casa (onde foi resgatada pela polícia) há pelo menos 12 anos e foi para trabalhar. Disse também que conheceu Therezinha (a dona da casa, segundo a polícia) em Copacabana, quando as duas passeavam com cães. A conversa entre as duas começou torno dos cachorros —contou a agente comunitária Rosenildes dos Prazeres Parga, de 62 anos, que foi quem descobriu o endereço onde a idosa estava, por meio de uma busca feita no sistema de cadastramento de usuários do SUS.

Na primeira noite que passou em Pilares, a idosa também se comunicou com os parentes do Maranhão, por telefone e videochamadas. A sobrinha dela, Raquel , pretende aproveitar a passagem pelo Rio, onde vem buscar a tia, para tentar descobrir em que circunstâncias morreu a outra tia atrás da qual Maria das Graças veio quando deixou o Nordeste.

Raquel suspeita de que Maria de Nazaré também vivia em cárcere privado numa outra casa até morrer. Mas essa informação foi negada por Maria das Graças, em conversas com Rosenildes. A idosa contou que a irmã trabalhava para uma família, era muito alegre e que as duas costumavam se ver. No entanto, ao ser resgatada, a idosa contou aos policiais que não tinha a chave da casa e que era mantida no local por uma mulher que não a deixava sair ou falar com outras pessoas.

Maria das Graças deixou o Maranhão em 1969, a procura de uma vida melhor e perdeu o contato com a família, que ainda vive no Nordeste, há mais de 30 anos. Há dois, a sobrinha Raquel deu início à busca, que treve desfecho na manhã de terça-feira. A idosa foi resgatada pela polícia vivendo em condições subumanas com outra idosa, numa casa em Pedra de Guaratiba, junto a mais de 40 cachorros.

Além de muitas fezes no quintal, havia até um pequeno cemitério de animais nos fundos do imóvel, com direito a lápides, onde foram encontradas algumas ossadas de bichos. A idosa foi encontrada na casa de dois andares e muro alto com outra idosa, que seria a dona do imóvel. Ela dormia num quarto onde havia uma cama velha e quebrada, apoiada por tijolos e que sequer tinha colchão. O cômodo era dividido com os cachorros. Ela foi encontrada maltrapilha, suja, com um dos pés descalços e com uma imensa cabeleira coberta por um pano.