Política ambiental pode gerar fricções entre Brasil e EUA durante governo Biden, diz Itaú

Ivan Martínez-Vargas
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Ivo Gonzalez /
Ivo Gonzalez /

SÃO PAULO - O governo brasileiro deverá ter fricções com o novo governo americano se a política ambiental de Joe Biden se alinhar à postura protecionista de países eurpeus, segundo o economista chefe do Itaú, Mario Mesquita.

O presidente eleito dos Estados Unidos adotou durante a campanha uma postura crítica ao negacionismo em relação ao aquecimento global defendido por Donald Trump. Biden também criticou a política ambiental do Brasil durante um debate.

— A Floresta Amazônica no Brasil está sendo destruída, arrancada. (...) Eu tentarei ter a certeza de fazer com que os países ao redor do mundo levantem US$ 20 bilhões e digam (ao Brasil): "Aqui estão US$ 20 bilhões, pare de devastar a floresta. Se você não parar, vai enfrentar consequências econômicas significativas" — afirmou à época, sem detalhar quais seriam as consequências.

Para Mesquita, é possível que o Brasil passe a ter problemas com os Estados Unidos na discussão ambiental.

— O relacionamento entre Brasil e alguns países europeus sofre desgaste por conta do tema ambiental. Caso um governo Biden adote uma postura perante o tema ambiental parecida àquela que se observa em alguns países europeus, como os escandinavos e a Alemanha, é possível que a gente comece a ter fricção com os EUA também nesse front — afirmou.

Segundo ele, esse é um tema que deve ser acompanhado de perto, e que pode afetar negativamente a atratividade do país junto a investidores estrangeiros.

— Se o Brasil na área ambiental adota uma postura muito diferente da que é dominante e vista como adequada pelas principais economias do mundo, isso traz consequências para atração do fluxo de capitais — disse Mesquita.

Retomada do crescimento

O economista afirmou também que o Itaú estima crescimento de 9% do PIB brasileiro no terceiro trimestre, ritmo que deve se manter em algum grau até o fim do ano. A estimativa do banco para o PIB de 2020 é de retração de 4,5% e, para 2021, crescimento de 3,5%.

Segundo Mesquita, a retomada da atividade econômica ainda é desigual entre regiões e setores da economia.

— É muito heterogêneo (o crescimento) e mais forte em bens e produtos industriais do que no consumo de serviços. E é mais forte no Nordeste e no Norte do que no Sul e no Sudeste. Isso está realcionado à importância do auxílio relativo ao PIB nessas regiões — afirmou ele.

O crescimento previsto para 2021 é em boa medida explicado pela comparação com 2020, segundo ele. O volume menor da injeção de recursos públicos na economia, dado o fim do auxílio emergencial, é visto como um dos fatores limitantes para o crescimento.

Por outro lado, a manutenção dos juros baixos, a recuperação da economia global e a tendência de baixa na poupança devem estimular o crescimento.

Inflação e juros

Para Mesquita, o pico inflacionário que o país viveu nos últimos meses deve arrefecer no fim do ano. Na estimativa do Itaú, a inflação voltaria a subir nos primeiros meses de 2021, mas deve recuar depois de maio. Isso, segundo o banco, deve fazer com que a taxa Selic só suba, para 3%, no fim do próximo ano.

— A inflação anualizada agora vai ter um vale até o fim do ano porque a gente vai tirar do índice a pressão do preço de carne que houve no final do ano passado. Depois, sobe de novo e o máximo dela deve ser em maio, entre 4% e 4,5%. Em seguida, deve cair de novo em direção aos 3% no fim de 2021. Se a nossa previsão estiver correta, o BC vai poder deixar a taxa de juros parada até o fim do ano, quando seria ajustada para 3% — afirmou.

O cenário, no entanto, depende do fim do atual ciclo de depreciação do real frente ao dólar.

— É importante que a taxa de câmbio não continue numa trajetória de depreciação. Se ela continuar nessa trajetória (de queda do dólar) vista da semana passada para cá, isso vai reduzir as pressões inflacionárias. No fim do dia, a margem de ociosidade que existe no mercado de trabalho acaba segurando o crescimento dos salários e, com isso, não há a espiral de preços de salários (em alta) que poderia gerar um processo inflacionário mais persistente — disse Mesquita.