Política pós-pandemia vai aliar nacionalismo e cooperação, diz especialista em governança

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - A política pós-pandemia de coronavírus terá ao mesmo tempo doses de nacionalismo e cooperação internacional, afirmou nesta quinta (28) Ngaire Woods, reitora da Escola de Governo Blavatnik, da Universidade de Oxford, e professora de governança global. Em debate sobre como redesenhar a política após a pandemia, promovido pelo Fórum Econômico Mundial, ela disse que, assim como ao final da Segunda Guerra Mundial, as nações serão pressionadas a "arrumar primeiro os seus quintais" antes de pensar em grandes projetos globais. "Líderes e governos terão que colaborar com seus parceiros da economia para dar oportunidades aos seus cidadãos ao mesmo tempo em que promovem a cooperação internacional", disse Woods. Para ela, há pelo menos três áreas em que essa cooperação será incentivada: na vitória sobre o coronavírus, no investimento para a reconstrução econômica e na ajuda humanitária. "Já fizemos isso em momentos de divisões muito mais agudas, sob ameaça de uma hecatombe nuclear", afirmou, dizendo estar cautelosamente otimista. Para o jornalista Martin Wolf, editor-associado e principal colunista econômico do jornal britânico Financial Times, o mundo passa por um de seus maiores desafios e as decisões tomadas pelos governos nos próximos anos vão moldar o mundo de maneira muito profunda. "Este é um daqueles momentos em que se faz, refaz ou desfaz a ordem mundial e a ordem política doméstica", disse ele. Uma das grandes questões para Wolf, que coordenou o debate, é a perspectiva de que a China se torne o poder dominante, assumindo o lugar dos Estados Unidos. Ele argumenta que em vários países do mundo a legitimidade dos poderes político e econômico foi desafiada, e não será trivial reconstruir a confiança nos governos à sombra de um poder emergente que tem um sistema completamente diferente dos do mundo ocidental. Preocupação semelhante foi expressa por David Rubenstein, cofundador e principal executivo de um dos maiores grupos de private equity do mundo, o Carlyle. "Os EUA recuaram em sua liderança global sob o governo de Donald Trump e ficará mais difícil recuperar a imagem americana depois que o mundo assistiu horrorizado à invasão do Congresso", disse ele. Paralelamente ao recuo dos EUA, a China mostrou eficiência no combate à pandemia e recuperou rapidamente seu crescimento econômico, o que lhe deu uma posição relativa ainda melhor na liderança global, disse ele. Rubenstein apontou ainda que a administração do presidente Joe Biden terá que lidar com um forte crescimento na desigualdade, em um grau que não será fácil de resolver nem mesmo com estímulos econômicos. O aumento da desigualdade foi, segundo Wolf, um dos principais impactos negativos da pandemia: "As maiores perdas de vida foram entre os idosos, mas as maiores perdas econômicas foram entre as mulheres, as minorias e os menos qualificados, reabrindo o abismo". Ao mesmo tempo, segundo ele, "há muita raiva nas duas pontas do espectro político" -nos que defendem pautas identitárias como o Black Lives Matter e na extrema direita- o que dificulta a tarefa de um governo centrista. O momento é "catalítico", nas palavras de Lysa John Berna, diretora da Civicus, entidade não governamental que promove a participação dos cidadãos na política. "Após uma década de descontentamento, as pessoas chegaram a um ponto em que não têm nada a perder, e a pandemia, por ser um fenômeno global, acabou conectando todos os insatisfeitos com o sistema e alimentando os movimentos", disse. Embora Wolf tenha apontado que a influência global da China, de governo centralizador, poderia ser um obstáculo para a atuação dos movimentos cívicos, Berna disse que eles estão organizados de forma muito horizontal, sem uma liderança central ou uma máquina única, o que permite que sobrevivam a pressões de governos autoritários.