Políticos anti-isolamento 'devem pensar nas consequências de suas posturas', diz arcebispo de São Paulo

Thiago Herdy
Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo

SÃO PAULO — Políticos que se posicionam publicamente contra medidas de distanciamento social devem “pensar bem” nas consequências de suas posturas, pois elas "podem ser trágicas para a população".

Essa é a opinião de dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo e um dos líderes da Igreja Católica no Brasil.

"Seria melhor não desprezar a experiência, já adquirida, de outros países, que lidaram com a fase aguda da pandemia um pouco antes de nós", diz dom Odilo, em entrevista ao GLOBO.

Em meio a manifestações de filósofos em defesa de reconhecimento da fragilidade da vida e da própria mortalidade em tempos de Covid-19, no lugar de se depositar toda expectativa na religião e na ciência, Dom Odilo destaca o ponto de vista da Igreja. "A postura resignada e sem esperança diante do mistério da morte não satisfaz às interrogações do coração humano", afirma.

Ele conta que está "batalhando para manter empregos nas paróquias paulistanas", mas diz que "ainda não sabemos como isso vai ficar, se as restrições para as celebrações e atividades permanecerem suspensas por muito tempo”.

LEIA TAMBÉM:Papa liga a arcebispo de SP em solidariedade às vítimas da Covid-19

O que o sr. diria a lideranças políticas que se posicionam publicamente contra medidas de isolamento social?

Que pensem bem na sua responsabilidade pública e nas consequências de suas palavras e posturas. Essas consequências podem ser trágicas para a população. Seria melhor não desprezar a experiência já adquirida de outros países, que lidaram com a fase aguda da pandemia um pouco antes de nós.

Como encontrar conforto espiritual com igrejas e templos de portas fechadas?

Esse conforto é encontrado a partir da fé religiosa, e esta permanece, mesmo à distância. Procuramos nutrir e sustentar a fé das pessoas com celebrações litúrgicas, orações, palavras de conforto e orientação transmitidas pelas diversas mídias, e muitos modos de contato e interação com as pessoas, sem serem contatos presenciais.

O que pode fazer a Igreja para que "não nos esqueçamos dos pobres", em meio à saturação dos leitos públicos de UTI na capital paulista?

Além da necessidade de hospitais, que estão a cargo das políticas públicas de saúde, os pobres precisam se alimentar, ter abrigo, roupa, cobertor para o frio, uma palavra boa de valorização e conforto. Há diversas iniciativas de caridade acontecendo nas comunidades. Contribuímos, através de nossa presença organizada na cidade, com a divulgação das recomendações sobre a prevenção contra o contágio e os cuidados básicos para assistir aos doentes nas casas. Os hospitais pertencentes a instituições ligadas à Igreja também estão contribuindo com a sua parte.

Em meio à crise atual, qual é o sentido da fraternidade?

As crises são vencidas mediante esforços conjugados, ninguém as vence isoladamente. Graças a Deus, neste tempo de pandemia têm aparecido muitas iniciativas de solidariedade em todos os níveis: governamental, empresarial, da sociedade civil, das igrejas e de muitos grupos espontâneos. São expressões de fraternidade concreta.

Que tipo de reflexão é possível neste cenário?

A pandemia está nos levando a refletir sobre os rumos de uma economia voltada ao acúmulo, em vez da distribuição, e sobre os estilos de vida, certamente necessitados de mudanças em relação a uma maior justiça social, fraternidade e satisfação das necessidades básicas para a vida digna de toda a população.

A pandemia atual vai mudar as atitudes humanas em relação à morte?

Não saberia dizer se isso vai acontecer. Mas é certo que a pandemia nos leva a ter uma consciência mais clara de nossa fragilidade e mortalidade. Estamos sujeitos a males nem sempre controláveis, que nos podem fazer perder a vida de um momento a outro. Nas circunstâncias atuais, penso que as pessoas são confrontadas com a possibilidade concreta de perderem a vida, se forem contagiadas pelo novo coronavírus.

Filósofos têm refletido sobre a necessidade de arcarmos com nossa própria mortalidade e transitoriedade individuais, sem depositar na religião ou na ciência todas nossas expectativas. O que o senhor pensa sobre o assunto?

Essa maneira de pensar não é nova e sempre existiu entre as correntes filosóficas do passado. O pensar é livre e cada um há de justificar suas afirmações. Afirmar que a morte acaba com tudo precisa de uma justificação, tanto quanto afirmar que há esperança em vida após a morte. No meu parecer, a postura resignada e sem esperança diante do mistério da morte não satisfaz às interrogações do coração humano.

Para o senhor, então, as interrogações permanecem...

Estou convencido de que há motivos para crer e esperar que não existimos para o aniquilamento, com a morte, mas somos chamados à vida plena. Isso responde melhor às interrogações do nosso “coração inquieto” (aqui cito Santo Agostinho) e tem base segura na fé religiosa cristã. A pretensão de “arcar com a própria mortalidade” pode ser uma extrema afirmação de onipotência, que acaba na frustração absoluta. Acho sensato levar a sério as interrogações do coração humano e da sua racionalidade, confiando na onipotência de Deus, senhor da vida.

Qual é o impacto na obtenção de fundos para custeio de atividades pastorais?

Como as demais instituições, a Igreja também sente o peso econômico da quarentena, que se tornou necessária. A sustentação ordinária das atividades pastorais e iniciativas caritativas vem de doações dos fiéis e, com a suspensão de serviços e celebrações, essas doações caíram drasticamente. Procuramos reduzir os gastos e administrar os parcos fundos de reserva eventualmente existentes.

Como ficam os empregos nas paróquias?

A manutenção dos empregos é, para nós, uma prioridade. Mas ainda não sabemos como isso vai ficar se as restrições para as celebrações e atividades permanecerem suspensas por muito tempo.