Políticos de esquerda com grande votação têm dificuldade para atingir eleitores mais pobres

O perfil do eleitorado dos deputados federais de partido de esquerda mais bem votados em outubro mostra uma concentração de votos em regiões mais ricas de Rio, São Paulo e Minas. Mapeamento feito pelo GLOBO com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que as dez zonas eleitorais onde eles conquistaram votação mais expressiva têm alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O cenário foi parecido na eleição com candidatos derrotados a governador que eram apoiados pela esquerda nesses estados: Marcelo Freixo (PSB) e Alexandre Kalil (PSD) tiveram padrão semelhante, enquanto Fernando Haddad (PT) em São Paulo também teve seus melhores desempenhos em algumas áreas mais ricas, mas, na capital, superou Tarcísio de Freitas (Republicanos), eleito governador, nos bairros mais pobres.

O panorama reflete um potencial tradicional de votos de classe média e alta por perfil ideológico. E também a dificuldade que a esquerda tem de acessar áreas mais pobres, muitas vezes já dominadas como redutos políticos de quem já está no poder, e onde parte da agenda identitária defendida por políticos desse lado do espectro ideológico tem dificuldade de ecoar.

— Existe um tipo de eleitor com mais renda e que pertence a um grupo intelectual que tende a votar na esquerda por conta das pautas identitárias. Nas áreas mais pobres, há uma concorrência de interesses por forças que muitas vezes não são políticas, como o papel da igreja, onde o estado quase não chega — explica a cientista política da Universidade de Brasília, Michelle Fernandez.

Neste sentido, de acordo com a especialista, é preciso considerar as diferentes vertentes do movimento político: há um lado voltado às políticas sociais e outro às pautas identitárias, como feminismo e a luta voltada à comunidade LGBTQIAP+. Isso explicaria a segmentação do voto dado a Érika Hilton, segunda parlamentar da esquerda com mais votos de São Paulo e a primeira mulher trans e negra a integrar o Congresso Nacional.

Assim como a colega de bancada Sâmia Bomfim, Érika Hilton colheu seus maiores frutos em bairros nobres da capital paulista, tais como Bela Vista, Água Branca, Pinheiros, Itaim Bibi e Saúde.

Esse cenário se refletiu a mais de 580 quilômetros de distância, em Belo Horizonte: na capital mineira, a também futura deputada federal trans Duda Salabert (PDT) teve seu melhor desempenho em zonas localizadas no bairro de Lourdes, conhecido por ser o distrito com o maior IDH da cidade: 0,955, apenas um pouco menor do que o de países nórdicos, como a Noruega.

Em Minas, esse movimento se repetiu ainda na votação de Rogério Correia (PT), Reginaldo Lopes (PT) e Paulo Guedes (PT), que ficaram restritos a grandes centros, quando conseguiram romper a bolha de Belo Horizonte. Dificuldade que também foi enfrentada por Alexandre Kalil (PSD), derrotado pelo governador reeleito, Romeu Zema (Novo), no primeiro turno no estado. Das dez zonas em que obteve maior destaque, cinco também se localizam em Lourdes. Kalil teve êxito em três outras de BH, duas em Mantiqueira e uma em Barreiro.

No Rio, Marcelo Freixo, assim como Talíria Petrone e Tarcísio Motta, antigos colegas de partido, no PSOL, conquistou milhares de votos em Laranjeiras, Jardim Botânico e no Maracanã. O único local em que rompeu essa lógica foi o bairro do Flamengo, mas o localizado em Maricá, onde o pessebista obteve 40 mil votos. Lá, ele teve o apoio do deputado federal eleito e ex-prefeito Washington Quaquá (PT), com quem fez uma série de comícios.

Talíria e Tarcísio foram os deputados psolistas mais votados no Rio. Ela também foi bem em Icaraí, Santa Rosa, bairros nobres de Niterói, cidade que é seu reduto eleitoral. Enquanto Tarcísio concentrou seus votos na Zona Norte e na Zona Sul da capital fluminense.

A tendência foi seguida pelos parlamentares petistas Benedita da Silva e Lindbergh Farias. Ex-prefeito de Nova Iguaçu, Lindbergh conseguiu uma votação expressiva na Baixada Fluminense, mas com enfoque nas regiões centrais, onde mora a população mais abastada. Na Zona Sul carioca, longe de seu reduto eleitoral, foi amplamente apoiado pelos eleitores.